Opinião
Carnavais
LUCIANO SIQUEIRA * Antigamente o carnaval se iniciava aos sábados. Era o sábado de Zé Pereira. Hoje, em muitos lugares, como no Recife e em Olinda, desde o início de janeiro a folia ocupa as ruas e invade os salões, em prévias animadas e concorridas. De modo que hoje é quinta-feira de carnaval ? a primeira, porque a outra quinta, pós-quarta-feira de cinzas, também será de carnaval, já que, cá na província, a festança irá mesmo até o domingo subseqüente. Não há, no Brasil, um carnaval único, homogêneo, uniforme. Há carnavais. Distintos na duração, na intensidade com que arrebata multidões, na variedade de ritmos e cores, no caráter mais ou menos democrático. O carnaval de Pernambuco é ímpar. A começar pela tradição, palmilhada por uma história guerreira. Pois foi com muita luta que os pernambucanos, recifenses em particular, conquistaram o direito de ganhar as ruas e fazer a folia. No final do século XIX e início do século XX, só às elites era reservado esse direito ? que desfilava suas alegorias e clubes de máscaras, cabendo à ralé apenas o papel de espectador. E foi enfrentando proibição legal e muita repressão policial que os trabalhadores, a gente pobre da cidade, literalmente abriram alas e puderam brincar. Daí a associação natural entre diversas agremiações carnavalescas e a categoria profissional dos seus integrantes, revelando traços de união entre a luta por direitos corporativos e a pugna pela liberdade de participar dos folguedos. Vassourinhas, Pás Douradas, Lavadeiras, Lenhadores e tantos outros surgiram dessa simbiose lúdico-combativa. Provavelmente aí se encontram as raízes do caráter absolutamente democrático do carnaval que aqui se realiza. No Recife, em Olinda, nas demais cidades litorâneas e regiões interioranas, o pernambucano cai no frevo ou se deixa envolver pelo batuque eletrizante do maracatu, livre e espontaneamente, nas praças e nas ruas. Não precisa pagar. Aqui certamente não vingaria um carnaval argentário como o do Rio de Janeiro, realizado no Sambódromo, do qual o povo foi afastado (como se queixa Oscar Niemeyer em entrevista recente) pela discriminação econômica. Nem se poderia imaginar o Elefante de Olinda ou Pitombeira dos Quatro Cantos protegidos por cordões de isolamento e impondo a compra daquela espécie de bata que se vê em Salvador. A massa ?freveria? de novo e iria à guerra pelo sagrado direito de viver suas fantasias, dores, sonhos, amores, tristezas, esperanças e alegrias no ambiente de liberdade conquistado há um século. (*) É MÉDICO E VICE-PREFEITO DE RECIFE