Opinião
Dom bosco com os pobres
DOM EDVALDO G. AMARAL (*) Desde sua juventude, João Bosco fez uma clara e decisiva opção pela juventude pobre e abandonada. Seu propósito foi definitivamente ser padre e padre para os jovens pobres. Órfão de pai aos dois anos de idade, com imensos sacrifícios, trabalhando no campo, servindo de empregado em fazendas, exercendo humildes ofícios em Chieri, ele conseguiu estudar até a hora de entrar no seminário. Aí houve em sua vida uma crise vocacional. Convencido da excelsa dignidade do sacerdócio e com escrúpulos de não estar à altura da sagrada missão do presbiterado, estando no mundo como padre secular, o jovem João Bosco começou a pensar seriamente em abandonar família e amigos, e fazer-se frade na pobreza franciscana, julgando que na vida religiosa mais santamente viveria seu sacerdócio. Assim pensando, no dia 18 de abril de 1834 (com 19 anos incompletos), prestou exames e foi aprovado para ser aceito como postulante no Convento de S. Maria dos Anjos, em Brescia. Antes que tal se consumasse, seu pároco, padre Dassano, foi visitar Margarida Occhiena, a santa mãe de Bosco, e procurou convencê-la a dissuadir o filho a se fazer frade, concluindo: ?Seu filho, com as qualidades que possui, por certo fará brilhante carreira eclesiástica. E a senhora que não é rica e já está avançada em anos, irá precisar de sua ajuda. Para seu bem, venho aconselhá-la a dissuadi-lo desta idéia de se fazer religioso?. Mamãe Margarida agradeceu o interesse do pároco, mas logo que encontrou João Bosco, disse-lhe essas proféticas palavras: ?O vigário está querendo que eu te dissuada a não te fazer religioso, para poder contar contigo em minha velhice. Eu não entro nesses assuntos de vocação. Tu o decidirás diante de Deus. Nada espero de ti. Nasci na pobreza, vivi sempre na pobreza e quero morrer na pobreza. Aliás, vê bem: se resolveres a fazer-te padre secular por razões financeiras, e se por desgraça te tornares um padre rico, fica sabendo desde já que tua mãe nunca porá os pés em tua casa!? (MB, vol. I, cap. 33, pgs. 295ss) As palavras de sua santa mãe ecoaram em toda a vida de Dom Bosco, que com lágrimas nos olhos, as recordava aos 70 e mais anos, lembrando seu aspecto imperioso ao proferi-las em tom profético e marcaram toda sua existência e seu amor pelos pobres, sobretudo a juventude pobre e abandonada. Desde os nove anos, sua vida estava definida: ser padre para os jovens! E para os jovens pobres e necessitados, que naqueles anos (metade do século 19) vindos dos campos e das montanhas invadiam Turim, capital do Reino do Piemonte, em busca de trabalho. Eram ajudantes de pedreiro nas grandes construções, eram os pequenos limpadores de chaminé e outros pequenos ofícios de aprendizes. Jovens sem instrução, que haviam largado suas famílias e sua terra e procuravam na cidade grande algum pequeno trabalho para comprar o pão e a ?minestra? de cada dia. Dom Bosco, com a ajuda de muitos, o apoio de seu arcebispo, mons. Fransoni, a incompreensão de parte do clero e a perseguição de alguns, inclusive a polícia e o poder público, começou a Obra dos Oratórios festivos. Abria para os jovens, que aos domingos perambulavam pelas ruas da capital do Piemonte, um espaço de sadio divertimento, de catequese, de oração com confissão e participação na Santa Missa. Foram inicialmente três os primeiros Oratórios festivos da Congregação (S. Francisco de Sales, S. Luiz e S. João Evangelista) que, de Turim, se espalharam pelo mundo, pela Itália, pela Europa (França e Espanha) e depois nas missões da Argentina e no Brasil. Sempre a juventude, e a juventude pobre e abandonada. Dom Bosco hoje estaria vivendo preocupado com os nossos jovens, que vivem na rua cheirando cola, ou os jovens pobres, drogados, sem perspectivas de futuro. (*) É ARCEBISPO EM. DE MACEIÓ