Opinião
19 de fevereiro de 2004
DOM FERNANDO IÓRIO * Não sei se vocês acompanharam meus olhos tristonhos. Não deixa de ser fácil ver o semblante do outro, sem sonhar os seus sonhos. Retirava-me sozinho ao segredo do meu jardim (borboleta procurando pesar o resto de alegria na balança das pétalas de minha flor). Ignoro em que jardim eu me encantava, nem em que flor procurava revigorar o meu sonho de viver. Sei, apenas, que meus familiares me achavam estranho, diferente, procurando ensaiar o bailado da tristeza, no resto de esperança que era o tudo que sobrava da minha esperança sempre viva em Deus, procurando completar em mim o que, porventura, faltara à Paixão de Jesus Cristo. Meus seminaristas, meus padres, meus diocesanos, meus amigos, religiosas contemplavam, estarrecidos, meus passos forçados mergulhados no lá menor da vida. Vocês, ca-ríssimos médicos, enfermeiros e serviçais do Hospital Santa Rita me viram chegar com os olhos sem aquele brilho natural, mormente você, dr. Pacelli, que entendeu não ia bem o ?eco? do meu coração, plasmaticamente, encharcado. E você, dr. Cid Célio, que recebeu o meu olhar, com toda a sua competência, alegria e paciência, preparando-me para as mãos mágicas do mecânico de Deus, dr. Wanderley, que, de início, me advertiu: ?O senhor, dom Fernando, não está nas minhas mãos, mas nas mãos da Onipotência de Deus... Eu sou, apenas, um mecânico de Deus, com mais de 30 anos de experiência que conserto a máquina humana; Deus, entretanto, faz circular a vida?. Nas mãos de Deus, ali me encontrava eu nas mãos de Deus e entregue à excelente e competente equipe de dr. Wanderley, da Santa Casa de Misericórdia de Maceió, hoje na direção do organizado e experiente dr. Humberto Gomes. Assim, cheguei às suas mãos, dra. Anabel. A todos minhas orações e agradecimentos. Quantas vezes, sem saber o que circulava, dentro de mim, parei, ante o mar imenso ?gurgite vasto?, de Virgílio, desejando fosse minha tristeza jogada no cantochão das águas salgadas ?salso argenteo?, de Camões. A maré alta restituía o amargor da minha dádiva, com uma mescla de verde olhar, daqueles olhos verdes que Jorge de Lima suplicava à sua madrinha, a Virgem Maria. Hoje, dezenove de fevereiro de 2004, regresso ao meu lar, dentro em breve, aos meus trabalhos pastorais. Procurei despertar a madrugada e acordar a aurora, com aquele olhar, esperançosamente verde, até o despontar dos dedos luminosos do sol para o novo dia, por demais esperado por mim. E senti, no recôndito do meu ser, aquele despontar poético de Dolores Duran: ?É de manhã!... me dê a mão... vamos sair pra ver o sol!...?. A quantos me visitaram (e foram centenas de amigos), deixo o meu agradecimento na pessoa de Pierre Chalita, que mesmo enfermo, foi ofertar-me o perfume da esperança, com sua alma de artista. Estou vendo o novo sol da vida, enquanto canto o encanto de poder salmodiar a melodia do agradecer ao Senhor da vida, até aquele momento supremo em que o piano da vida tocar a derradeira nota sem fim, na eclosão do amor. Amém. (*) É ARCEBISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS