Opinião
Tra�os contempor�neos
APOLINÁRIO REBELO * Li recentemente o livro ?Bandeiras Vermelhas?, de Valdir Porfírio, com 278 páginas, lançado pela Textoarte Editora. Mas, antes do livro, vou falar de Valdir Porfírio, autor da pesquisa e do texto. Valdir é uma figura múltipla, autor dos perfis de José Joffily, ex-deputado federal e um dos líderes das campanhas nacionalistas dos anos 50 e de Argemiro de Figueiredo, ex-governador paraibano. É dirigente comunista e homem da comunicação. Conhecedor e propagandista da Literatura de Cordel, recita freqüentemente os versos de autores como Oliveira de Panelas, seu conterrâneo, e outros. Dono de fina ironia, é capaz de galvanizar platéias com suas estórias caçoando dos amigos e camaradas. O Beto Rivera, gaúcho brabo que só a peste, que o diga. Pois é Valdir que nos brinda nessa viragem de ano com o livro que desfralda e resgata 60 anos de ação das ?Bandeiras Vermelhas? na Paraíba. Mergulha nos primórdios da luta operária em seu Estado natal, no início do século passado, localizando as primeiras indústrias, sua distribuição geográfica e as primeiras refregas das lutas proletárias na Paraíba. Mostra as origens do pensamento socialista no Estado, a repercussão da revolução russa de 1917, o comportamento dos comunistas locais diante da revolução de 1930, os progressos feitos pela Partido Comunista do Brasil nos movimentos sociais, as vigorosas greves que sacudiram a Paraíba em 1935 e a frustrada tentativa da insurreição nacional libertadora articulada pelo PCB após o fechamento da Aliança Nacional Libertadora, por decreto do presidente Getúlio Vargas, em 13 de julho daquele ano. O equivocado apoio do PCB a uma possível independência do Nordeste. Foca a luta dos comunistas na resistência ao Estado Novo, o combate à ditadura, a mobilização pela entrada do Brasil na guerra contra o eixo fascista formado pela Alemanha, Itália e Japão. Expõe a ascensão do movimento comunista na Paraíba puxado por jovens e talentosas lideranças e personalidades importantes de João Pessoa e Campina Grande. Conta o apoio dos comunistas a Getúlio no imediato pós-guerra e a disputa eleitoral que ocorreu em 1945 com a eleição do advogado João Santa Cruz, primeiro comunista a ocupar um mandato na Assembléia Legislativa. Narra os progressos políticos do Partido em Campina Grande, Mamanguape e outras cidades do estado. Valdir historia a legalidade partidária, a obtenção de 14% do eleitorado de João Pessoa, a conquista de mandatos parlamentares nas Câmaras Municipais de João Pessoa, Campina Grande e Mamanguape, a luta contra a cassação do registro da legenda e a defesa dos mandatos comunistas. Relata o trabalho de comunicação. As origens e a luta pela manutenção do Jornal do Povo, primeiro diário comunista da Paraíba. Resgata a disputa política e ideológica com o jornal anticomunista A Imprensa, editado pela Igreja Católica, que, à parte desse embate, prestou informações fundamentais na elaboração do livro. Valdir vai desfiando histórias sobre as lutas estudantis e juvenis, sobretudo dos secundaristas do Liceu Paraibano, as lutas das mulheres, os primeiros de maio, as lutas sindicais, a campanha pelo monopólio estatal do petróleo e a resistência contra a cessão da Ilha de Fernando de Noronha ao governo norte-americano durante o governo de Juscelino Kubitschek. Resgata a trajetória das lutas camponesas, o esforço do partido na organização dos trabalhadores rurais. Conta um pouco da vida de João Pedro Teixeira, pernambucano que mudou para Sapé, fundando a Liga camponesa local e o sindicato rural que ficaram imortalizados no filme de Eduardo Coutinho Cabra Marcado para Morrer, lançado em 1984. Valdir recupera a trajetória dos jovens comunistas Baldomiro Souto, Félix Araújo e Geraldo Baracuhy, cometas que iluminaram com suas passagens fulminantes a história da Paraíba nos anos 40 do século passado e que protagonizaram tragédias que emocionam até hoje. O livro ainda mostra os acertos do Partido Comunista, mas com rigor também aponta os erros cometidos por sectarismo, intolerância ou mesmo por intromissões descabidas na vida particular de seus dirigentes, onde em uma delas provocou a trágica morte de Helena Carolino que tocou fogo no próprio corpo, para não ser humilhada numa acareação inquisitória e machista. Um livro que vale a pena ser lido. (*) É JORNALISTA