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Carnaval: o novo e o velho

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CARLOS JOSÉ GONÇALVES * O carnaval de 2004 do Rio de Janeiro, com certeza, será inesquecível para o povo brasileiro. Num ano de desfiles patrocinados e de falta de criatividade que impera em alguns carnavalescos, surge um nome, ainda desconhecido da massa, mas que demonstrou que veio para ficar. Com ingredientes simples, como canudos, garrafas pet e latão, aliados à simplicidade e criatividade, o carnavalesco da Unidos da Tijuca, Paulo Barros, fez a diferença, ao levar para a Sapucaí cem bailarinos com os corpos pintados, que formaram uma torre humana. Essa imagem marcará para sempre a passagem da Unidos pelo sambódromo. Aplausos, entrevistas e até convites para comandar outra escola. Pois é, o carnavalesco que deu à comunidade da Tijuca o título de vice-campeã virou uma celebridade. O novo ocupou seu espaço; e o velho, que tantas glórias deu ao carnaval carioca, foi demitido e humilhado. Aos 70 anos de idade, Joãosinho Trinta, que completou 30 anos de avenida, foi descartado, antes mesmo da apuração dos desfiles das escolas de samba, de uma forma autoritária e burra por parte da diretoria da escola de samba Grande Rio. Para o presidente da bi-campeã Beija-Flor, Farid Abrão, Joãosinho devia aproveitar para cuidar da saúde. ?Ele está doente há muito tempo. Deve se tratar?, disse Farid. Com certeza, para ele, o genial Joãosinho Trinta ? que colocou a Beija-Flor, desconhecida do grande público até a metade da década de 70, na elite do samba ? deve estar precisando de repouso. O fato é que a polêmica sempre foi uma das marcas registradas de Joãosinho Trinta. Quem não se lembra do desfile da Beija-Flor, ?Ratos e urubus, larguem minha fantasia?, onde ele cobriu com plástico a imagem do Cristo Redentor? Fora isso, ele é o maior detentor de títulos do carnaval carioca brasileiro: doze vezes campeão e com vários títulos de vice-campeão. Foi premiado em todas as escolas de samba por onde passou, tendo, inclusive, colocado a desconhecida e novata escola de samba Grande Rio, no ano passado, numa inédita e confortável terceira colocação. Faltando poucos dias para o desfile, o presidente de honra da Grande Rio, Jayder Soares, que tanta mídia obteve sobre o enredo, só percebeu essa polêmica praticamente com a estrutura do desfile montada. Segundo ele, Joãosinho levou sua briga pessoal com a igreja para dentro da escola, prejudicando a Grande Rio. A briga do carnavalesco com a igreja foi motivada por alegorias que representavam casais fazendo sexo, no enredo ?Vamos botar a camisinha meu amor?. ?O Joãosinho inovou há um tempo atrás, mas não tem mais conseguido ser criativo. Nós queremos alguém que mude as coisas?, disse o presidente. No resumo da história, o velho Joãosinho Trinta, diplomado em danças clássicas pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, carnavalesco, diretor artístico, palestrante e professor de Laboratório e Pesquisa em Curso Superior de Moda e um dos expoentes da cultura brasileira, teria levado pornografia à avenida. Ainda segundo a diretoria da escola, foi dada liberdade para criação, mas ele acabou levando o enredo para a perversão. Prefiro ficar com minha visão de um genial João Jorge Clemente Trinta, esse maranhense que, aos 17 anos de idade, chegou ao Rio de Janeiro para dar alegria e beleza aos próximos 40 anos de trabalho que se seguiram, ligados à maior festa popular do Brasil. Seja bem-vindo o novo carnavalesco da Unidos da Tijuca; no entanto, que se tenha um pouco mais de respeito pelo velho Joãosinho. Ou melhor, pelo ?jardineiro mágico?, como bem batizou outro gênio, o poeta Carlos Drummond de Andrade. Espero que os vários artistas que desfilam na Grande Rio ? a escola que mais tem componentes ligados ao teatro e à televisão ? assim como pede o enredo da escola, vistam, não só a camisinha, mas a camisa em defesa do genial e ainda criativo Joãosinho Trinta. (*) É ASSESSOR DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA ECT/AL

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