Opinião
A mulher e o poder
GENILDA LEÃO * No próximo dia oito de março o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher. Em Alagoas, as programações serão muitas e variadas, cada uma delas tentando evidenciar aspectos de um heroísmo sofrido e, aqui, acolá, avariado. Há muito, mulheres vêm empunhando bandeiras, quer em tempos mais sombrios, quer em tempos mais amenos. Não apenas para o que se refere às próprias mulheres, mas aos negros, aos índios, aos homossexuais e a outros grupos discriminados pelos clãs mais ao centro dos poderes de toda ordem: uma questão de sobrevivência e afirmação de valores naturalmente óbvios, mas culturalmente relegados. Em se falando nas culturas ocidentais, em muitos aspectos a luta vingou e, hoje, apesar dos entulhos de uma ordem atrasada, as mulheres já ocupam espaços, antes inimagináveis, e poucos ainda têm dúvida sobre sua competência intelectual e seu poder criativo de participação na construção de uma sociedade moderna, calcada em valores mais perenes, menos descartáveis. Contudo, não nos esqueçamos de iluminar a memória das tantas mártires de todos os tempos; não neguemos o sacrifício das que, pioneiramente, invadiram a cena e montaram o espetáculo para as gerações que se lhes sucederam. É verdade, o presente já celebra novos conceitos, já não segmenta o mundo em mulheres e homens, situados em trincheiras opostas. Nesse exercício, temos, sim, entoado gritos contra os inimigos comuns a todas as tribos, feito um rasgo de garganta que arrepia até a alma. Parece-nos, hoje, que as questões de gênero já não são ironizadas e encaradas como diletantismo, mas como tema essencial em qualquer discussão sobre poder e sociedade. Portanto, não há mais espaço para que as mulheres ? que venceram tantos obstáculos, execraram o machismo, criticaram as sexistas ? joguem-se umas contra as outras, ou contra os homens, como numa grande arena medieval. Já não carecemos de estratégias de guerra, nem de alardear ao mundo que somos superiores e mais fortes que os homens, imitando o atrasado discurso milenar da formação machista. Estamos sob os holofotes, partilhando as dores e delícias de tudo o que conquistamos, mas cônscias e solidariamente ombreadas com nossos pares. Assim, nada mais coerente e saudável que, num sistema de tantos lobos, não sejamos os predadores da razão histórica que orientou tantas das contendas travadas para que pudéssemos nos dar ao luxo de dormir sobre a esperança no futuro. Tanto quanto a discriminação e a escravidão a que foram submetidas as mulheres, um comportamento predatório teria efeitos drásticos sobre conquistas fundamentais, incidindo, diretamente, sobre códigos de uma ética tecida em lutas históricas. Claro, não obstante todas as lutas e vitórias, os escombros de tempos danados ainda pairam sobre o inconsciente coletivo, zombam das mudanças revolucionárias e parecem entoar a equivocada cartilha que o processo socioeducativo joga sobre a condição masculina, repetindo os mesmos jargões e empacando nas mesmas querelas que transformam pseudo-antogonismos em questão fundamental: ?quem é melhor, mais inteligente, mais isso e mais aquilo...?? Naturalmente, a pergunta é sem resposta, a controvérsia é inexistente porque se houver resposta e controvérsia estaremos reafirmando que a mulher precisa ardentemente provar que não é uma equação mal resolvida. Iluminados por essa falsa polêmica, ainda há os horrores cometidos por um número ainda significativo de mulheres, em nome da decantada e fastidiosa ?fragilidade feminina? ? uma vergonha se tomamos em conta o discurso que justifica as reivindicações de igualdade de direitos: pensões alimentícias espúrias, extorsões financeiras nas partilhas de bens, chantagens que se utilizam dos direitos de maternidade, maternidade evocada como recurso de manutenção de relações falidas ou quaisquer outros expedientes que surgem como exercício de um poder velado, aprendido com os atores da opressão, mas igualmente esmagador e desonesto. Tudo isso depõe contra os princípios e a força que amealhamos em décadas e séculos e atestam a incompreensão sobre os novos ventos. O legítimo poder que nos cabe e pelo qual tanto brigamos inclui, sim, estratégias muito mais arrojadas e dignas, à altura dos objetivos propostos em todos os postulados defendidos e que, felizmente, representam a força majoritária na composição dos novos quadros. Esse elenco contempla o direito ao voto ? um instrumento de cidadania que deixou de ser exclusividade masculina, nos idos de 1932. Contempla o direito de ocupar vagas em todas as instâncias do poder constituído, de opinar sobre a condução de políticas públicas, de compreender a sociedade e a natureza humana à luz da ciência, de construir todos os espaços democráticos que propugnamos em todo o processo histórico de luta. Vimos, ao longo da história, recolhendo o lixo e inaugurando, dia, após dia, sempre um momento grandioso, igual ao que todos merecemos. Devemos e podemos celebrar a vida em todas as suas formas. E todos os 365 dias serão de todos, o que é muito mais legítimo. Como lembra Clarice Lispector, não podemos nos acostumar com as dores e migalhas, sob pena de torná-las naturais. (*) É DEPUTADA ESTADUAL