Opinião
Mitos modernos
O recuo da inflação na principal cidade do País (São Paulo) contradiz uma das crenças contemporâneas brasileiras, a que vaticinava que a baixa inflação seria a panacéia para os males nacionais. Essa crença, na verdade, unia um pressuposto verdadeiro ? a inflação é nociva à sociedade ? com um falso determinismo, o de que, com inflação baixa, o crescimento econômico é líquido e certo. A verdade é que não basta uma baixa inflação para se estabelecer um ?alto? desenvolvimento num país. O processo inflacionário prejudica qualquer processo de crescimento, empobrece a maioria da população, ao operar uma brutal transferência e concentração de renda; mas para se crescer economicamente e desenvolver em todos os campos é necessário bem mais coisas que a inflação baixa. A comprovação da fragilidade a máxima que coloca um sinal de igualdade entre estabilidade da moeda e crescimento está na dualidade contraditória entre o recuo da inflação e a crise econômica e social que se abate sobre o mesmo espaço, o maior município brasileiro, a capital de São Paulo. Essa constatação não deveria passar desapercebida, ou ser encarada como uma curiosidade da pesquisa econômica. Ao se constatar isso ? fato óbvio para parcela dos estudiosos de economia, empresários e pesquisadores em geral ? deveria ser aprofundado o debate sobre a necessidade premente de se buscar novos caminhos para o crescimento econômico e o desenvolvimento do Brasil. O mito da estabilidade da moeda como o único fator a ser considerado no cenário econômico deve ser afastado de vez, sem dar margem a qualquer tipo de retorno ao desvio inflacionário. À estabilidade da moeda devem ser agregadas outras políticas que tenham a capacidade de implementar rumos verdadeiramente novos para a economia brasileira, com o retorno do crescimento econômico. Sem esse entendimento, a manutenção de certos mitos contemporâneos ? como o da inflação como único obstáculo ao crescimento econômico ? só continuará a causar maiores e mais profundos prejuízos.