Opinião
Morte s�bita
RONALD MENDONÇA * Engatinhava na medicina quando os primeiros esboços de UTIs começavam a se desenhar em Alagoas. Por incrível que pareça, o privilégio do ousado pioneirismo de pôr em funcionamento uma unidade de terapia intensiva cabe ao velho HPS da Dias Cabral. Figura mítica, Dirceu Falcão foi um valente desbravador da medicina alagoana que, na sua acanhada ?Neves Pinto?, criou nos anos 60 um Centro de Terapia Intensiva sob a direção do médico Carlos Paes, o notável decano anestesista. É covardia alguém pretender comparar aquelas quase românticas e bem-intencionadas UTIs com as de hoje. Mas foi na década de 70 que os maiores hospitais de Alagoas ? Usineiro e Santa Casa ?, atendendo aos reclamos dos novos tempos, decidiram investir em modernidade, inaugurando suas respectivas UTIs, abrindo inimagináveis horizontes, modificando definitivamente os rumos da prática médica em Alagoas. De fato, foi um salto gigantesco que transformou o tímido exercício da arte hipocrática até então vigente, viabilizando utópicos procedimentos neurocirúrgicos, cardiológicos e outros de complexidade equivalente. Sem medo de errar, pode-se dizer que a medicina na nossa terra divide-se em antes e depois das UTIs. Desmistificadas, hoje as UTIs incorporaram-se de tal forma à paisagem dos grandes hospitais e ao gosto popular que quase mais ninguém teme fazer um ?estágio? de ?2 ou 3 dias? nas suas dependências. Com efeito, cantada em versos e prosas por exaltados poetas que dela já se beneficiaram, seu corpo funcional é comparado a providenciais anjos da guarda (e são mesmo), que dia e noite velam incansáveis, espantando a repelente ?magra?, que teima, infatigável e inexorável, em rondar leitos em busca de novas almas. Infelizmente, os duros castigos impostos pela ditadura dos que fazem a medicina no nosso País estão levando as nossas UTIs a uma situação de falência. Aliás, não só as UTIs, mas toda a rede hospitalar que depende de um certo SUS para sobreviver. (A bola da vez, agora, são os hospitais psiquiátricos. O ódio dessa gente contra dono de hospital psiquiátrico é tão grande que ela não hesita em jogar na lama milhares de doentes mentais). Não se pode, evidentemente, responsabilizar os atuais governantes pelo desmantelo geral. Incompetentes e enrolados, o PT & Cia. são simplesmente os coveiros de plantão. Muitos os precederam e certamente outros tantos os sucederão. Não menos lastimável é a vida dos que trabalham em UTIs. Os ?anjos da guarda? dos lindos poemas estão pedindo socorro. Mal remunerados, ziguezagueiam pelas UTIs de diferentes hospitais para garantir a sobrevivência e a escolaridade dos filhos. Aos poucos, a impensável jornada de trabalho e a imensa responsabilidade vão se transformando em missão suicida. O cenário é desolador: homens e mulheres-bomba sem lazer, obesos e hipertensos, subtraídos da vida familiar, correndo (eles próprios) o risco de morte súbita. (*) É MÉDICO E PROFESSOR