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MARCOS DAVI MELO * O último domingo amanheceu belo. Às seis e meia da manhã dava a costumeira caminhada na Praia da Ponta Verde, envolvido pela placidez do momento e do local, tentando esquecer o ?crescimento negativo? do PIB, a retração da economia e o crescente desemprego, ao mesmo tempo que não pára de crescer a satisfação do FMI com a performance do País e ainda o caso Walfrido Diniz. O dia reservara-me, todavia, uma agradável surpresa para afastar momentaneamente as nuvens negras: repentinamente, um rapaz de uns trinta e poucos anos, que corria cadenciadamente, abordou-me cordialmente. Era o Floriano, tinha sido meu aluno na Escola de Ciências Médicas e se formado em 1989. Logo, avidamente, perguntava como estava a nossa Escola, os professores, funcionários... Dominado por esta salutar curiosidade que todo professor tem em saber o que aconteceu com os seus alunos e ao sabor da leve brisa da manhã e da saborosa maresia dominante, atualizou-me sobre a sua vida: estava na Alemanha há doze anos, exercendo a medicina em um dos mais importantes hospitais de Berlim, a capital daquele país. Fazendo parte já do staff oficial da entidade alemã, exercia a cirurgia de cabeça e pescoço, casara-se com uma germânica e já tinha um filho alemão. Enfim, saíra do interior da Bahia, formara-se em Alagoas e vencera em um dos países mais exigentes e rigorosos do primeiro mundo. Quando vinha ao Brasil de férias, preferia Maceió a Bahia. Pouco depois nos despedimos e combinamos nos encontrar antes de sua volta para a terra de Goethe. Quando terminava a minha caminhada, encontrei o professor e colega Abynadá Lyro, que iniciava a sua, e comentei com ele a satisfação que tivera alguns momentos antes. O colega, também ex-professor do Floriano, logo deu-me mais detalhes sobre o caso. O José Floriano Neto é originário da região interiorana do Juazeiro da Bahia. Veio para cá como muitos outros para fazer o vestibular da ECMAL, fora aprovado e fez de Maceió o seu ninho. Ao formar-se, resolveu aprimorar-se na Alemanha. Aconselhou-se com o professor Abynadá, que ao seu estilo deu-lhe a sua opinião: ?Floriano, você tem um monte de coisas contra; é pobre e de um país pobre, formou-se em uma região ainda mais pobre, é preto, mas se tem a força e a coragem vá à luta!?. O Floriano, que adotou Alagoas como sua terra natal, foi, enfrentou as barreiras culturais, entre as quais a língua e o preconceito racial de um dos países historicamente mais radicais neste aspecto, enfrentou as noites gélidas e distantes, lutou contra todas as adversidades e as venceu. As professoras Nilza Martins e Dione Simões, diretoras da ECMAL, devem estar felizes, como todos os demais professores que deram a sua contribuição para o Floriano e vêem neste caso um exemplo de que, com estudo, dedicação, seriedade e abnegação, nós brasileiros, nordestinos e alagoanos podemos superar as maiores dificuldades e sermos iguais ou melhores do que qualquer um ariano primeiromundista e arrogante. (*) É MÉDICO

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