Opinião
Ressaca latina
Um clichê muito usado para definir e comparar a situação de Brasil e Argentina era associado a uma bruta ressaca (provocada por vodka), acompanhada do bordão ?eu sou você amanhã?. O que estava acontecendo com o país vizinho, fatalmente aconteceria aqui e vice-versa. A verdade é que as coisas não ocorreram bem assim: o Brasil não dolarizou a economia, nem desceu aos níveis chocantes da crise social e política que assolou nosso vizinho. Se fomos poupados do pior, isto não significa que por aqui sofremos pouco. Muito pelo contrário. Enquanto na Argentina existia uma poderosa classe média que findou empobrecida e tragicamente mutilada, os pobres brasileiros, que já eram muitos, ficaram ainda mais pobres e a classe média tupiniquim (mais calejada que a congênere argentina) também sofreu um duro processo de empobrecimento. No dia 15 de março deste ano, o Fundo Monetário Internacional deverá se reunir para decidir se renova ou não o acordo e o empréstimo à Argentina. A situação é de impasse: de um lado, o FMI pressiona o país para atender às demandas dos credores privados. Do outro, o governo portenho repele a atuação do Fundo, com o argumento de que as metas acordadas estão sendo cumpridas e, portanto, do ponto de vista técnico, nada impediria a elaboração de um novo acordo. Contudo, as distâncias que separam a posição do FMI e do governo argentino, se não são intransponíveis, são bem distintas. Para o Fundo, um superávit primário entre 9% e 10% corresponderia às expectativas dos credores. Para as autoridades argentinas, a parcela destinada ao pagamento da dívida estaria condicionada ao desempenho do PIB. Se as projeções de crescimento econômico para este ano se confirmarem (6%), seria destinado um percentual correspondente a metade (3%) para o superávit. Em seus últimos pronunciamentos, o presidente da Argentina tem reiterado que não utilizará as parcas reservas nacionais para pagar a parcela do empréstimo ao FMI no valor de US$ 3,1 bilhões, que vence no dia 9 de março. Ressaca argentina à vista. E a nossa ressaca, depois de amanhã, como será?