Opinião
Amor e orgulho
JOSÉ MEDEIROS * Quando se escreve sobre um assunto que já saiu das manchetes, já esfriou, ou cujo resultado não se pode mudar ? é comum ouvir esta frase: ?Agora, é tarde, Inês é morta...?, expressão que lembra a história de uma mulher que só depois de morta foi rainha! Possível? Sim. É um episódio antigo, quase lenda, que remonta ao Rei Afonso II, de Portugal. Seu filho, o príncipe Pedro, apaixonou-se perdidamente por uma belíssima dama espanhola, com quem teve três filhos. Seu pai não gostou do caso com a estrangeira, cujo nome era Inês, exasperou-se, não era esse o interesse da coroa. E foi às últimas conseqüências: condenou à morte e mandou decapitar a intrusa, que se insinuava em assuntos amorosos da corte portuguesa. Essa história poderia ter acabado aí, mas, vã esperança! D. Pedro, o apaixonado subiu ao trono, após a morte do pai, e, surpreendentemente, mandou desenterrar Inês. Vestiu-lhe trajes pomposos de rainha e obrigou todos os súditos a beijar os ossos que restavam em suas mãos. Uma cerimônia digna das aventuras do conde Drácula. Discutir a essa altura resultados e escolhas do Oscar, é chorar sobre o leite derramado. ?É muito tarde, Inês é morta...?. A premiação da academia desprezou um bom filme nacional, Cidade de Deus. Sempre gostei de cinema. No Rio de Janeiro, de certa feita, num domingo, eu e meu irmão, Rui, fomos assistir a um filme previamente escolhido. Na bilheteria (isso aconteceu nos anos 70), o bilheteiro chamou-nos à atenção: ?é um filme brasileiro, é isso mesmo que os senhores desejam assistir?? Apesar da observação, não desistimos. Entramos, e aí tomamos consciência de um estranho fato: sala vazia, e um filme desses que a gente sai correndo antes do término. Trinta anos são transcorridos e, agora, o cinema brasileiro tem-nos proporcionado muitas alegrias. Não troco ?Deus é Brasileiro?, de Cacá Diegues; ou ?Auto da Compadecida?, baseado na obra de Ariano Suassuna, por muitos enlatados americanos, sempre empurrados goela abaixo. Isso, sem esquecer os filmes: ?Central do Brasil?, ?Lisbela e o Prisioneiro?, ?Caramuru ? A Invenção do Brasil?, entre outros. A cinematografia nacional evoluiu bastante. Quando fui pró-reitor da Ufal, um contrato com a Embrafilme garantiu o envio semanal de um filme, exibido, aos sábados, no salão nobre da antiga Reitoria, na Praça Sinimbu. Imprimia-se um folheto com a descrição e resumo da fita, quase sempre com a análise do professor Elinaldo Barros. Um embrião de cinema de arte. Algumas dessas películas ? até aquele momento ? não haviam sido exibidas nos cinemas do circuito comercial. Os gozadores não perdoavam: apelidaram de ?o poeira do Zé Medeiros?. Não será exagero afirmar que chegou a hora e a vez do cinema brasileiro. No Oscar, pelo menos, foi aproveitada a extraordinária mídia televisiva, transmissão simultânea para bilhões de telespectadores no mundo inteiro. (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE