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Opinião

Poder pelo Poder

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RUYTER BARCELOS * Os desdobramentos políticos da conduta inadequada de um ex-assessor do alto escalão da República deixarão marcas difíceis de apagar na história do Partido dos Trabalhadores (PT). O PT construiu, ao longo de seus vinte anos, um caminho de retidão no agir político, fato marcante na política atual do País, embasado na linha de coerência que uniu suas diferentes correntes ideológicas formadoras: a ética. Contudo, fatos recentes começaram a colocar em dúvida a universalidade de tal proceder dentro do partido. Denúncias sobre nepotismo, favorecimentos e outras, conduzem o partido à vala comum da política brasileira, negando-lhe a trincheira da probidade. Mais uma vez, surge tema da relação entre a ética e a política, onde muitos defendem que esta obedece a um código de regras, ou sistema normativo, diferente, e em parte incompatível, com o código, ou o sistema normativo, da conduta moral. A forma como é colocado o problema sugere que o político possua um código de regras para o agir individual diferente do agir social e, portanto, a ação política não necessitaria ser submetida ao juízo moral. Sobre isso, em um célebre capítulo de ?O Príncipe?, Maquiavel sustenta que o bom político deve conhecer bem as artes do leão e da raposa, onde o primeiro é o símbolo da força e o segundo, da astúcia. Por outro lado, o mesmo autor afirma que a satisfação do príncipe está em ser justo, não em fazer ?grandes coisas?. Entretanto, há aqueles que consideram fundamental fazer ?grandes coisas?, deixando de lado os princípios, vale dizer, tendo foco no resultado, em uma nítida inversão dos valores que devem nortear meios e fins. Com certeza, a questão ética envolvida na discussão sobre os fins que se deseja atingir com o agir social deve envolver, também, os meios que serão utilizados. A conclusão é óbvia, pois o que é válido para os fins é válido para os meios. Contudo, por vezes, nos acostumamos a ouvir os políticos afirmarem ?razões de Estado? como justificativa para seus atos, como se os fins justificassem os meios empregados. Ledo engano, pois a elevação da consciência crítica da sociedade exige conduta ilibada. De fato, o que se deseja de um político, quando no cargo público, é que use o poder em proveito de causas ditas sociais, que melhore a qualidade de vida da comunidade que o elegeu, que pratique ações moralmente corretas e aceitas por todos, que seja transparente em suas atitudes, como forma de prestar contas de seus atos aos eleitores. Tal agir político significa o uso do poder de forma legítima. Contudo, o que se observa é, em muitos casos, uma distorção de conduta após a chegada ao poder, onde muitas atitudes são direcionadas à permanência no poder, abrindo espaço para negociações obscuras, favorecimentos ou tráfico de influência onde o beneficiado é o próprio político. Claro que estamos falando da minoria, pois o País pode se orgulhar de muitos políticos que são um exemplo de correção de atitudes. A preocupação está na possível inversão da regra em exceção, pois ninguém podia imaginar que o proceder de forma não condizente pudesse contaminar também o PT, nem pensar que houvesse espaço para o sugerido ?caixa dois? de campanha com a finalidade de permanecer no poder. Nítido está que o poder pelo poder é uma distorção do agir político e o País está cansado de assistir a práticas reprováveis por parte daqueles que detêm o poder com o objetivo de angariar eleitores e consolidar sua própria posição política. (*) É OFICIAL DA RESERVA DO EXÉRCITO BRASILEIRO.

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