Opinião
O b�-�-b� da vida
JOSÉ MEDEIROS * Minha professora das primeiras letras utilizava o método antigo de alfabetização: o bê-á-bá, o bê-o-bó... Letras, sílabas e palavras, esta era a ordem seguida na aprendizagem. E de nada posso me queixar, pois aprendi a ler muito cedo. O tempo passou e o processo de aprendizagem sofreu uma verdadeira revolução. As teorias de Piaget (estudioso da inteligência da criança) ganharam curso. Curiosamente, Piaget não era psicólogo nem pedagogo, e sim biólogo de formação inicial. Entretanto, tornou-se um dos maiores mestres da Pedagogia. Paulo Freire ? numa dimensão brasileira projetada em nível internacional ? ensinou que ?a leitura do mundo precede a leitura das palavras?, e isso explica a prioridade dada à compreensão do texto, seqüenciada pelo enfoque de palavras, sílabas e letras. A tabuada, na escola primária da professora Avelina, minha mestra inesquecível, merecia um destaque especial. ?Decorebas? e memorizações eram indispensáveis. E ai de quem deixasse de prestar atenção! Essa docente gostava de recitar versinhos sobre a tabuada. Somente 40 anos depois, descobri o autor de ?O canto da tabuada?, o conhecido poeta Adelmar Tavares. Vejam o poema: ?A sala.../ A lousa trincada em meio... / A Mestra... o estudo da meninada... / Batia um sino para o recreio... / Soava o canto da tabuada: / Um e um ? dois, / dois e um ? três, / três e um ? quatro, / Quatro e dois ? seis. / Como vai longe... Passam-se os anos... / Morrem-me os sonhos... Chega a geada... / E eu vou contando os meus desenganos, / Como no canto da tabuada: / Um e um ? dois, / dois e um ? três, / três e um ? quatro, / Quatro e dois ? seis. / Assim se aprendia de forma prazerosa. A escola tem reflexos sobre o dia-a-dia da existência humana. É inegável a influência dessa aprendizagem inicial. Ainda, hoje, repito, involuntariamente, os versinhos ?um e um, dois... / dois e um ? três?. / Eles estão bem fixados nas dobras de minha memória. Mas o bê-á-bá da escola também se repete na vida. Aprende-se diariamente. Quem está na faixa etária de 40 ou 50 anos acompanhou as mudanças ocorridas em relação a valores, costumes e hábitos; no modo de viver e de sentir as coisas. Quase sempre aprende-se ? com a chegada da maturidade ? a compreender mais, a perdoar mais, a delimitar a influência de sucessos e derrotas do cotidiano. Há pessoas que se julgam o ?Sansão? da vitalidade física ou o ?Freud? da fortaleza espiritual. Ledo engano. Quase sempre essa aparente couraça não resiste ao primeiro choque provocado pela morte de um ente querido, de um relacionamento rompido, do desprezo de alguém que se ama. Os livros de auto-ajuda tentam ensinar como conseguir a felicidade; ajudam, apenas. O resto depende do poder de reação de cada um. É necessário querer, e querer com força! O bê-á-bá da vida é uma contínua aprendizagem. (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE