Opinião
Indiferença e desumanidade
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A crucificação foi, na Antiguidade, uma forma pela qual se castigavam e matavam os criminosos e os inimigos do Poder. O peso das pernas do crucificado sobrecarregava a musculatura abdominal, que, cansada, tornava-se incapaz de manter a sua respiração, levando-o à morte por asfixia. Método preferido pela crueldade e lentidão do sofrimento causado às vítimas, era apreciado por Roma e incluiu entre as suas vítimas, Jesus Cristo.
Uma médica intensivista de Manaus, descrevendo a falta de oxigênio nessa pandemia, relatou que os pacientes que, acordados e sentindo a crescente dificuldade de respirar, caíam em pânico até entrarem em torpor e falecerem, asfixiados. Morriam assim mais de duzentas pessoas diariamente em Manaus. Existiam cargas de oxigênio doados pela Venezuela disponíveis a poucas horas de voo dali, contudo, nada foi feito pelo governo federal para trazê-las e levar um mínimo de piedade para aqueles infelizes. Mas o famigerado Tratcov foi aplicado lá. George Bernard Shaw afirmava: “O maior pecado para com os nossos semelhantes não é odiá-los, mas sim tratá-los com indiferença; essa é a essência da desumanidade”. Há vários jeitos de se matar uma pessoa. A indiferença é uma delas e é o que tem se visto repetidamente na CPI dessa pandemia que já matou mais de 443 mil brasileiros. Fábio Wanjarten manteve a frieza glacial da indiferença e da desumanidade, mesmo mentindo tanto ao ponto de ser ameaçado de prisão. Igualmente, Ernesto Araújo mostrou gélida indiferença em relação ao oxigênio venezuelano que salvaria vidas, e, como chanceler, nenhuma providência tomou. Igualaram-se nas mentiras e na frieza digna dos carrascos de Auschwitz. O general Pazuello submeteu-se a isso como “missão cumprida” para proteger o presidente da República. Perguntado sobre a vassalagem no “Manda quem pode”, afirmou: “Aquilo que o presidente da República posta na internet não vale”. Ocorre que ele açula repetidamente seus seguidores por internet para suas corriqueiras altercações e ameaças. Isso não vale nada? Falta aos governistas um mínimo de empatia, que é a capacidade de sentir um pouco do sofrimento de outras pessoas se estivessem na mesma situação delas. Seus depoentes não falam de acordo com os fatos, mas tendo um fim determinado, que é manter o poder, seja quantas forem às vítimas fatais. Os fatos são os fatos, independentemente de gostarmos deles ou não. A ciência, desprezada pelo presidente Bolsonaro e por seus seguidores - cujo negacionismo é a principal razão dessa mortandade -, está longe de ser um empreendimento perfeito, mas pelo menos é um meio com autocorreção e, até hoje, o que se mostrou mais preciso para nos aproximar dos fatos. Ao contrário dos extremistas, que não reconhecem nunca os seus erros, entre eles, a indiferença e a insensibilidade com os crucificados.