Opinião
O bicho, o bicho e a mega
LUIZ GONZAGA BARROSO FILHO * Minha saudosa tia Cecília tinha o hábito de jogar no bicho e, diariamente, me encarregava de fazer suas apostas na banca do ?seu? Lima, sempre com uma recomendação: - ?Cuidado para não perder o pule!? Naquela época, eu era um menino de calças curtas e sua advertência procedia, pois o ?pule? correspondia ao bilhete, sem o qual o apostador não receberia o prêmio, se acaso acertasse o bicho sorteado. O jogo do bicho, para ela, era uma diversão, um passatempo, e para apostar utilizava métodos que iam desde a interpretação dos sonhos a simpatias, como a que mandava apagar um fósforo numa xícara de café frio, para que a borra que ficasse sobre o líquido, em conseqüência da fumaça do fósforo queimado, formasse uma figura parecida com o bicho que ia dar. Mas, como o sonho oferece o melhor palpite, ela costumava fazer promessas, quando ia dormir, recorrendo aos santos, com orações como esta: ?Meu Bom Pastor, vou me deitar/ Sem me benzer e sem rezar./ Quero que meu Bom Pastor me mostre/ O bicho que amanhã vai dar./ Se eu jogar e ganhar/ Acendo uma vela no quintal/ Para o meu Bom Pastor pastar.? O tempo passou, minha tia faleceu, deixando-me valiosos ensinamentos sobre os aspectos folclóricos do apreciado jogo, embora eu não tenha adquirido o hábito de apostar. Já adulto, freqüentador das festas populares em Maceió, especialmente das realizadas na Praça do Pirulito, de vez em quando fazia uma fezinha no bingo, então conhecido pelo nome de víspora, jogo cuja banca, sempre muito movimentada, era comandada pelo Adalberto Vitorino da Costa, meu amigo ?Béu?, que com sua voz potente e pausada tinha uma maneira peculiar de ?cantar? as bolas: - ?A bengala do major (7)?. ?Pingo no pé, 9 é?. ? Dois patinhos na lagoa (22)?. ?Menino traquino (24)?. ?De rombo (20)?. ?Quariquaquá (44)?. ?As pernas do Béu (11)?...Assim, eu ia marcando as cautelas e, às vezes, até ?batia?, recebendo o percentual estipulado de acordo com o rateio. Essas reminiscências agradáveis também me fazem lembrar que naquele tempo não existiam Quina, Duplasena, Megasena, Loteria Esportiva, Lotomania, Lotofácil, Lotogol e outros jogos de azar controlados pelo Estado, tão perniciosos quanto os clandestinos. Hoje, quando gasto alguns trocados -esporadicamente - na Megasena e vejo os jogos considerados ilegais ocupando os noticiários, sendo combatidos sob a acusação de manter ligações com o narcotráfico, crime organizado, lavagem de dinheiro e escândalos políticos, fico mais preocupado com os jogos de interesse que são feitos nos gabinetes oficiais do que com os jogos de azar, porque não acredito que apenas a prática e a exploração dessas atividades contribuam significativamente para a tragédia social, moral e financeira que atinge o povo brasileiro. Também não creio que a erradicação desses jogos sirva de remédio para curar as mazelas do País. (*) É ADVOGADO E MEMBRO DA COMISSÃO ALAGOANA DE FOLCLORE