Opinião
O grande feiticeiro
RONALD MENDONÇA * Ouço dizer que em passadas civilizações (essas que invasores europeus destruíram) existiam sábios anciãos que comandavam a vida nos aglomerados humanos. Conselheiros ?de verdade?, a longa existência, ao lado de uma rica contribuição pessoal para o crescimento do seu povo, justificava a posição de autoridade. Quando jovens, tinham sido bravos guerreiros e suas conquistas eram conhecidas por todos os membros da comunidade. Os mais jovens, desde a mais tenra idade, iam aprendendo a reverenciar aquelas figuras míticas, quase divinas. Ai daqueles que os debochassem. Todos os condestáveis, sem exceção, tinham arriscado suas vidas em defesa do patrimônio cultural e físico da sua tribo (os invasores os consideravam primitivos, daí a denominação de ?tribo?). Os mutilados recebiam atenções especiais e até uma espécie de guarda pretoriana revezava-se para servi-los. O fato é que esses conselheiros davam o tom do dia-a-dia tribal. Nos dias de hoje, caberia como uma luva a expressão: ?Casavam e batizavam?. Como conheciam cada palmo de terra da região, determinavam o local e o que deveria ser plantado. Íntimos dos astros, ventos e tempestades, pressentiam as safras e orientavam o consumo para evitar a temível fome. Declaravam guerras e celebravam pazes. Era comum, apesar de não ser rito obrigatório, nas cerimônias matrimoniais, o noivo conceder a primeira vez, como prova de respeito e gratidão, a um daqueles gideões. Não raramente (não era tido como ofensa), os serenos conselheiros, delicadamente, declinavam daquela distinção. Machistas, proclamavam que é na primeira noite que se mata o galo. ?Nada do que foi será?, é o que nos diz a canção popular. Vieram-nos os portugueses; Cortez (?vencer ou vencer?) devastou o México e os americanos deixaram vivos índios suficientes para caber num filme de bangue-bangue. As velhas tradições do continente arderam nas fogueiras da ambição. Também é triste admitir: os grandes homens estão sumindo do planeta. Felizmente, nossa Alagoas conta com uma figura mítica, guerreiro quase solitário que hoje, como disse alguém, falta pouco para ser unanimidade. Doutor Ib Gatto Falcão, de forma semelhante aos antigos conselheiros tribais, sozinho vale por uma corte. Com efeito, poucos brasileiros podem assinar biografia parecida . Aos 90 anos bem vividos -completados hoje, construtor por excelência, usina de idéias, habituado a tirar leite de cabeça de prego, o Mestre não cansa de esgrimir ? desinteressadamente, é bom que se diga - pelo bem-estar comum. Acostumado ao calor dos grandes embates e a lutar em várias frentes, no momento (concerto de uma só voz), batalha pela preservação do patrimônio da Escola de Ciências Médicas, um dos seus filhos mais reimosos. Deus queira que os homens tenham juízo! Saúde, Mestre! (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL