Opinião
Mestre IB
MILTON HÊNIO * Ontem, completou 90 anos nosso estimado mestre e amigo, professor Ib Gatto Falcão. Recebeu homenagens durante a semana inteira, vindas da Academia Alagoana de Letras, onde exerce com brilhantismo a sua presidência; da Academia Alagoana de Medicina, onde é presidente de honra vitalício; do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, onde é membro atuante; da OAB, regional de Alagoas; da Escola de Ciências Médicas, uma criação sua; do Conselho Regional de Medicina; do governo do Estado; da Assembléia Legislativa; da Universidade Federal de Alagoas; da Uncisal e tantas outras. E qual o motivo de tantas homenagens, perguntará o jovem leitor? É que durante mais de 60 anos o dr. Ib Gatto dedicou-se de corpo e alma aos grandes projetos de Alagoas, nas áreas médica e cultural. Começou pela Santa Casa de Misericórdia de Maceió, depois foi o Hospital dos Usineiros, a seguir a Secretaria de Planejamento, Saúde, Educação, Conselho Federal de Educação e muitas outras atividades. Em todas as instituições por onde passou deixou marcas notáveis de uma grande administração. Mas a Medicina sempre foi sua grande vibração. Eu presenciei, quando doutorando de Medicina e seu aluno de Clínica Cirúrgica, em 1962, a disputa entre ele e o dr. Rodrigo Ramalho, na Santa Casa de Misericórdia, para ver quem operava mais indigentes durante uno ano. E chegavam a perto de 400 pacientes cada um. O médico, principalmente o cirurgião, sabe o quanto representa de esforço físico, sobretudo de desgaste mental, sustentar em luta desigual, por horas continuadas, entre quatro paredes de uma sala de cirurgia, a batalha entre a vida e a morte de um paciente. Isso tudo, sem uma contrapartida pecuniária, porque o paciente é pobre. Essa era a Medicina de ontem, de um passado vivido por uma geração de médicos que se extremavam pela fidelidade aos ideais e aos compromissos jurados, ainda quando o preço do sacrifício era a consciência do dever cumprido ou, quase sempre, a consagração do esquecimento pelos que não os deviam esquecer. Assim, foi a caminhada médica do dr. Ib Gatto. Nunca exerceu a política militante, apesar de ter sido convidado inúmeras vezes. Entretanto, jamais deixou de conviver com os problemas nacionais e regionais, de opinar com absoluto conhecimento em tudo que diz respeito aos interesses de Alagoas. Ao completar 90 anos, dr. Ib entra na galeria dos raros homens que, apesar da idade, ainda dominam, pela inteligência e pela cultura, a comunidade onde residem. Assemelha-se a outros tantos, que como ele, idosos, possuíam energia invejável: Charles Chaplin, Churchill, Trumann, Gandi, Victor Hugo, Austragésilo de Athaíde e tantos outros. Costumamos dialogar várias vezes durante a semana, logo cedo, pelo telefone e acho graça quando ele diz: ?Vou deixá-lo, porque ainda tenho muito que trabalhar hoje na Academia?. Há homens que vivem mais de suas atividades mentais do que das atividades físicas. São aqueles que Emerson considerava os redimidos do tempo, pela atividade de suas mentes. O seu currículo confirma esta assertiva, pela riqueza de títulos, diplomas e prêmios que lhe foram conferidos por várias instituições científicas espalhadas pelo Brasil afora. Mas entre tantos que foram conferidos, acredito que um deles teve especial significação nos últimos tempos para a sua sensibilidade: a presidência da Academia Alagoana de Letras que, apesar de pouco tempo, sofreu uma radical transformação, graças ao seu notável entusiasmo. Sei que apesar de nonagenário, ainda vibram em seu coração e em sua mente os sonhos e os ideais daquele jovem médico recém-chegado da Bahia, em 1935. Repousando em sua rede e olhando o luar que banha seu terraço, apreciando o Cruzeiro do Sul e o céu cheio de estrelas, viva dr. Ib, o seu domingo da vida e diga como na canção de Roberto Carlos: ?Obrigado, Senhor, por mais um dia?! Parabéns!! (*) É MÉDICO [email protected] 18-03-2004