Opinião
Com�rcio exterior
RUYTER BARCELOS * O comércio exterior brasileiro, em 2003, apresentou excepcional desempenho, particularmente nas exportações, que cresceram cerca de 20% e ultrapassaram os setenta bilhões de dólares. Para 2004, há expectativa de nova expansão, rompendo a barreira dos oitenta bilhões de dólares e superávit comercial acima dos vinte bilhões de dólares. Este é um cenário de aumento de produtividade, expansão acelerada nas exportações, incremento na corrente de comércio e diversificação de produtos e mercados. Assim posto, é um cenário de otimismo para o País. Contudo, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior anunciou, recentemente, a nova estratégia do governo para o setor, onde a exportação de manufaturados será prejudicada, trocando a prioridade das exportações pelo mercado interno. Inicialmente, é importante recordar a recessão econômica vivida em 2003, conseqüência das medidas para combater o eterno dragão brasileiro, a inflação, reconduzindo a economia aos trilhos da estabilidade e da credibilidade. Tal constatação é importante para definir que o mercado interno não possuía poder de compra para os produtos nacionais e a solução foi buscar o mercado externo, para colocar os produtos que aqui não se conseguia vender. Em parte, o sucesso no porto se explica pela visão empreendedora do empresário nacional e não por uma política governamental acertada. Sobre a mudança de estratégia, internamente, o cenário de baixo poder aquisitivo prossegue, o desemprego é crescente e a geração de renda permanece inviabilizada pela falta de investimentos. Neste contexto, é importante ressaltar que os gastos do governo não devem ultrapassar a soma das poupanças interna e externa. Para investir nas suas atividades básicas ? educação, saúde, segurança, dentre outras ? o governo se vale dos impostos, sendo que, no caso brasileiro, somos um dos países mais tributados do planeta, ou seja, não há espaço para mais impostos. Quanto à poupança interna, os brasileiros só têm capacidade de poupar cerca de 18% das necessidades para investimentos privados, quando o desejável seria 25%. Como fator agravante, as elevadas dívidas interna e externa inibem o crescimento nacional, dificultam ou mesmo impedem investimentos que poderiam gerar empregos e, por via de conseqüência, aumentam a renda nacional. Portanto, fica evidente que a saída passa a ser a poupança externa, onde o incremento das exportações é vital para a captação de recursos que não temos capacidade de gerar, mas necessitamos para realizar os investimentos transformadores, rompendo o ciclo nefasto que vive o Brasil. Assim, a alteração de prioridade das exportações pelo mercado interno é equivocada e não contribuirá para reativar a economia, recompondo a renda como espera o governo, pelo contrário, poderá prejudicar o relacionamento do empresário nacional com seus clientes externos, onde a confiança é primordial e obtida pela constância de procedimentos. Além disso, recuar agora significa ceder espaço para o concorrente, pois não há vácuo de poder, sempre surge alguém para ocupá-lo. Este é um cenário onde o Brasil ocupa apenas 0,9% do comércio internacional e o governo trabalha, lamentavelmente, para encurtá-lo mais ainda. Por último, a lição não aprendida nos bancos escolares e não vivenciada pelos políticos - deixar o mercado atuar livremente - ainda é a melhor para o Brasil, e sua não observância poderá ser desastrosa mais uma vez. (*) é empresário e-mail: [email protected]