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Opinião

O casamento

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MARCOS DAVI MELO * Alguns assuntos são um terreno tão movediço que mesmo os mais afoitos cronistas fugiram dele como o diabo da cruz. Um deles é o casamento. Esta semana, por uma razão especial e com absoluta insegurança, adentro este terreno movediço que é a convivência entre dois seres humanos, intima e diariamente por anos e anos a fio. Pessoalmente, tive nos meus pais o que se poderia considerar um bom exemplo: ambos de origem modesta, mãe extremada em seus desvelos e cuidados com os filhos e o marido. Pai trabalhador, sem vícios que o tirassem um milímetro das obrigações com a família. Ambos fizeram aquela trajetória tão comum quanto admirável no ser humano: trabalhar tão honesta quanto duramente e abdicar de projetos e interesses pessoais pelos dos filhos e netos. Unindo-os nesta cruzada, um carinhoso afeto, despojadamente sincero e profundo, que o tempo ao longo de 57 anos de convivência só consolidou e somente o desaparecimento de minha mãe aos 88 anos interrompeu. Recurso humano tão antigo quanto polêmico, o casamento tem sido motivo de reflexões e controvérsias por usuários ou recalcitrantes. Montaigne afirmava que: ?Dá-se com eles o que se dá com as gaiolas: os pássaros que estão fora querem entrar e os que estão dentro querem sair?. Obcecado pelo tema, achava que o bom casamento era o feito entre uma mulher cega e um homem surdo. Outro autor preocupado com a questão, Eno Wanke, acreditava que quem casava, morria um pouco. A prova disto seria que já não necessitaria mais de certidão de nascimento, pois a de casamento a substituiria perfeitamente para fins legais. Júlio Camargo alertava que os homens só casavam porque estavam seguros que os laços matrimoniais não os prenderiam. Usuário único e sem traumas, acho que a convivência íntima entre dois seres humanos por anos a fio, compartilhando de perto os inevitáveis bons e maus acontecimentos, pode envolver os melhores e os piores momentos da vida. Muito depende do equilíbrio e do bom senso nos períodos críticos. Não acredito em fórmulas, nem receitas prontas. O tempo, o amor e a experiência podem ajudar e melhorar o relacionamento, mas nem sempre, podem também azedar e azucrinar a vida, ou o que restar dela. Assim, sem verdades absolutas, mas amparado também nas pesquisas que mostram que os casados em geral gozam mais saúde e vivem mais, pelo menos uma conclusão pode ser feita: quem compartilha um casamento por 20, 30 ou 40 anos, forma uma família equilibrada, onde a preocupação maior passa a ser a sobrevivência dos filhos, com os mesmos critérios e a mesma dignidade dos pais, tem inegáveis méritos neste mundo, a cada dia mais individualista e conflituoso, e se isto não justificar uma celebração com a família e os amigos, o que mais justificaria? (*) É MÉDICO

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