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Opinião

Jogo sujo

Ronald Mendonça * Dos tempos de estudante de medicina guardo lições de pressurosos mestres da psiquiatria que, visando facilitar a compreensão dos nem sempre muito claros textos da especialidade, costumavam diferenciar o indivíduo normal, do neurótico

Por | Edição do dia 27/03/2004 - Matéria atualizada em 27/03/2004 às 00h00

Ronald Mendonça * Dos tempos de estudante de medicina guardo lições de pressurosos mestres da psiquiatria que, visando facilitar a compreensão dos nem sempre muito claros textos da especialidade, costumavam diferenciar o indivíduo normal, do neurótico e do psicótico apelando para a metáfora do castelo. Asseguravam eles que os normais sonham com castelos; os neuróticos constroem castelos no ar, enquanto os psicóticos moram nesses castelos. Maldosamente, costumava-se complementar: “e os psiquiatras cobram o aluguel”. Também é daquela época fato testemunhado numa sala de cirurgia de instituição universitária, quando um jovem cirurgião mordeu-se porque o velho anestesista recusara-se a direcionar o foco ( a luz) cirúrgico no ponto onde ele desejava. Tratava-se de um doente indigente e o resmungo concentrava-se na convicção de que “se o paciente fosse do Inamps, ele teria mais boa vontade”. (Podem acreditar no que estão lendo!). Com isso, engrosso o caldo das, ultimamente, freqüentes publicações de matérias expondo as mazelas da profissão médica e o futuro, digamos, um tanto sombrio para os que a ela se atrelaram. Na verdade, o barco está furado para muita gente. As exceções – as de sempre - são bancos e correlatos, apaniguados do governo que guardam a cópia da chave do cofre e mais uns poucos contemplados com imorais sinecuras. Esta semana mesmo, os alagoanos degustaram a exemplar “aula” do Mestre Ib Gatto Falcão, lembrando intransferíveis responsabilidades das instituições hospitalares. Não foi só. O presidente da Sociedade de Medicina de Alagoas, Cléber Costa, em oportuno artigo, expôs de maneira didática a relação patológica (praticamente um caso de sadomasoquismo) entre os planos de saúde/classe médica/usuários. Por conta dessa perversão é que médicos do Brasil inteiro estariam ensaiando uma insurreição. Pessoalmente, acho muito difícil aglutinarmo-nos. Diferenças regionais e outras “cositas” mais nos transformaram em presas dóceis, verdadeiros escravos dos planos de saúde. Evidente que a estrutura oficial – os governos, e disso a gente não esquece – vem dando ao longo dos anos sua mãozinha para a manutenção do establishment. No momento em que se afrouxou e permitiu generosos aumentos na mensalidade dos usuários e não obrigou o repasse aos médicos, foi mais do que sacana. Ele próprio (governo) afina o tom da valorização do médico quando abre concurso e oferece a merreca de 700 reais numa jornada de 20 horas semanais. A propósito dos psiquiatras que um dia “cobravam o aluguel” dos psicóticos que habitavam os castelos no ar, estão, hoje, entre os especialistas mais sacrificados. Muitos deles, ingenuamente, fazendo o jogo dos que sonham varrê-los do mapa. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

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