OPINIÃO
Réquiem a um poeta morto
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O velho tinteiro por sobre a escrivaninha de madeira, cuidadosamente talhada pelo artesão, guarda consigo silenciosos testemunhos de histórias, contadas em segredo nas desbotadas folhas de papel, quando das horas mornas do entardecer, ainda sob o frescor da brisa que se espraia por entre vetustos jequitibás, na terra comum dos homens. A pena fulgurante por entre as mãos do poeta desliza airosamente, num bailado quase que surreal pinta no impresso uma moldura, travestida em audível soneto, trazendo a guisa o talento inconteste do jovem Clóvis de Holanda Cavalcanti (1892-1914), máxime da intelectualidade parnasiana, jamais vista em terras caetés.
A mudez insiste em perpassar cada canto dos aposentos do velho sobrado do engenho Boa Ventura, num monólogo compreendido apenas por seu protagonista, cuja dialética profissional traz em pensamento lembranças outrora adormecidas, que vagarosamente renascem das cinzas, feito fênix que desconhece a morte e num excelso voo busca alçar a eternidade. Pálidas reminiscências que jaziam perdidas nos labirintos do longevo pretérito, doravante ressurgem dos amontoados escombros na imaginação desse vate das letras, dando vida a belíssimos sonetos, verdadeiras canções medievais, apreciadas ao som das liras nos salões palacianos do Velho Mundo.
E no entardecer da existência humana, quando a morte visita seu leito solitário, qual consolo derradeiro após dias de intensa agonia e vãs beligerâncias contra o mal que lhe acometia (peste bubônica), Clóvis se despede para sempre, rumo às plagas sem fins do outro mundo. A aurora dos anos vai desaparecendo nas curvas sinuosas da vida, com seus percalços e devaneios, restando tão somente o legado indelével do homem que se imortalizou em suas obras, se tornando o maior de todos os poetas parnasianos nascido nestas paragens de Viçosa e Chã Preta.
Se a vida lhe foi tirada ainda no alvorecer da juventude, seu inconteste talento é lídimo merecedor dos louros que a glória destina aos homens. Sua descomunal inteligência de autêntico literato, seus memoráveis e aplaudidos escritos poéticos tornaram-se indestrutível argamassa na mente dos que conhecem sua obra, cujos manuscritos publicados postumamente em “Germinal” (1921) demonstram de per si a grandiosidade de um vate, que mesmo no anonimato conseguiu eternizar seu nome, com seus versos: “O poeta às vezes, sobe aos paramos da glória,/Entre bênçãos de amor, alegria ilusória.../As horas que passou em vigília escrevendo/A sua febre de Arte, o seu tormento horrendo./ [...] Àquela ânsia infeliz da glória soberana,/-Pobre louco! Recebe a indiferença humana!”
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