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Opinião

Ensaio geral

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DOM FERNANDO IÓRIO * Estamos vivendo a Quaresma do ano 2004. A boa notícia que desejamos oferecer é que a Quaresma nasceu para ser um ensaio geral da Páscoa. Terminado o carnaval, os membros das escolas de samba já iniciam o trabalho para a festa momesca do ano seguinte. Pessoas há que emagrecem, de tanto esforço, dia e noite, na preparação do carnaval vindouro. Interessante seria que as comunidades religiosas vivessem estes quarenta dias de preparação intensa para a festa pascal como tantos das escolas de samba e blocos que expõem a própria saúde na preparação dos próximos desfiles carnavalescos. Quem prepara a festa pascal, nos 40 dias quaresmais, precisa, de certo modo, aprender com mestres e dirigentes de escola de samba ou diretores de teatro que, felizes, se preparam para o deslumbramento da estréia. O que está por trás do modo tristonho com que celebramos a Quaresma talvez seja sinal e indício de uma espiritualidade litúrgica pouco pascal. Desde a Idade Média, no Ocidente, tanto a liturgia oficial, como as celebrações e devoções populares estão mais voltadas para a penitência e a memória dos sofrimentos de Jesus Cristo do que para a festa da Ressurreição do Senhor. Em quase todos os lugares deste imenso Brasil, o que caracteriza a Quaresma é a ascese, como penitência, visando à intensa identificação com o Crucificado, sem referência clara e direta à Páscoa. No final das contas, são milhões de sofredores que, porque sofrem exclusão de toda parte, sabem, melhor do que ninguém, celebrar o sofrimento. Entretanto, não é demais lembrar que a Quaresma surgiu do final para o início. Começou com o tríduo pascal e só há pouco tornou-se um retiro penitencial de quarenta dias, procurando preparar os catecúmenos para o Batismo, na festa pascal. O caráter de dor, culpa e expiação pertence às culturas populares e é próprio da condição humana. Portanto, talvez fosse alienante imaginar a festa sem luta e sacrifício. O velho jagunço de Guimarães Rosa oferece-nos esta lição: ?Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria e mais alegre ainda no meio da tristeza?. Nessa caminhada, podemos descobrir o jeito pelo qual o povo liga a fé às condições concretas de sua vida. Crer não deixa de ser resistir e lutar. De certo, uma verdadeira mística pascal e inculturada deve respeitar essa expressão da piedade popular. Entretanto, não faltará tempo de se corrigirem alguns erros de trajetória. O importante é caminhar, ainda que, calçados às mãos, pés descalços, por sobre pedras e espinhos, mas sabendo que, bem ali, iremos calçar as sandálias e os sapatos, porque chegamos à festa onde nos espera o abraço do Ressuscitado. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS

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