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Cr�nicas do amanhecer

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JOSÉ MEDEIROS * Tudo o que se quis dizer já foi dito? Embora assim pareça há de se levar em conta a necessidade habitual e imperiosa de comunicação e, quem escreve, tenta fazê-lo na forma do seu pensar, introduzindo novas cores, outros matizes. Na crônica jornalística, em especial, esse fato é quase palpável. Tenta-se reproduzir uma temática, são feitas as adaptações na visão que se tem do acontecimento, do que se pensa sobre o assunto que vai ser desenvolvido naquele momento. Quando o tema é estático ? já tem lugar assegurado no tempo e no espaço ? escolhe-se o ângulo que se deseja comentar; quando o assunto é atual, tenta-se simplesmente não repetir (estritamente) o que já foi dito, discutido e analisado. Como você pode observar, nem sempre é fácil alcançar esses objetivos. Às vezes, as coincidências ajudam na atualização do que se relata. Alguns anos passados escrevi uma crônica sobre Frei Damião, que se encontrava doente e era penhor de minha admiração pessoal. Quando foi publicada, horas depois morria esse frade, que em vida, já era reconhecido como santo. Uma emissora local utilizou o conteúdo de meu artigo como base de suas informações ao público. Isso me sensibilizou, não pelo valor do que escrevera, mas pelo depoimento pessoal que representava. Conto nos dedos, com saudade, as vezes em que encontrei esse sacerdote e com ele conversei. Fui um admirador fervoroso de seu ideário espiritual-cristão. Muitos de meus artigos são escritos nas madrugadas, em amanheceres luminosos, quando abro a janela e deixo-me envolver pelos eflúvios do nascente, pelo multicolorido das alvoradas. Este ambiente suscita poesia e é muito difícil dela fugir; não dos versos, estrofes e poemas, mas da poesia sutil que encerra. Entretanto, a crônica tem exigüidade de espaço, necessita ser desenvolvida de maneira simples, pois se destina a um público heterogêneo. Por essa razão, não tento lapidar palavras para construir frases e textos que não estejam ao alcance da maioria. Em meu íntimo, no entanto, ainda tenho uma luta a mais: não ser dominado por assuntos médicos e pelo estilo seco da escritura científica; essas temáticas querem se imiscuir sempre na pauta do que escrevo. Quem tem leitores e tem amigos, tem o mundo, tem a alegria da vida, tem alguém com quem dividir o que pensa e o que sente; trata-se de uma rua com mão e contramão em que se realimenta o pensamento e o sentimento. Construo meus momentos felizes e tento transmitir um pouco de minha alegria aos que me lêem. É maravilhoso viver, é inestimável existir, como pessoa e como agente de uma ação social. (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE

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