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40 anos depois

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MÁRCIO LANZUERKSY * Era estudante de engenharia. Trabalhava na GAZETA DE ALAGOAS cobrindo as sessões da Câmara de Vereadores desta cidade. Dia 13 de junho de 1964, sessão extraordinária, exigida pela truculência do regime, destinada à cassação de mandatos dos vereadores Hamilton Moraes, Claudenor Sampaio e Jorge Lamenha (Marreco). Ambiente pesado, denúncia de presença de agente coator no recinto para garantir a vontade do poder estabelecido com o recente golpe de Estado. Não quis registrar o nome de tão detestável figura para que seu nome não seja mencionado nem como o de Pilatos no Credo. Começa a sessão e o vereador Hamilton Moraes, presidente da Casa, assume a tribuna denunciando a farsa: apenas cédulas concordando com a cassação estavam disponíveis e os vereadores, sendo observados de perto, não tinham como evitar o perigo de votar contra a vontade do poder das baionetas. O vice-presidente, em exercício da presidência, dirigindo a sessão, ouve, mas não escuta o libelo de seu colega, titular do cargo, protestando contra a vergonhosa interferência de pessoa estranha aos trabalhos. E, antes de o orador acusado concluir, como que surdo ou talvez amedrontado, o dirigente da sessão cassou-lhe a palavra com a tímida frase ?Suspendo a discussão e submeto a voto?. Aberta a urna e contados os votos, constata-se ausência de quórum para as cassações pretendidas. Sentia-se satisfação embora não se pudesse externar. Curiosidade geral: um vereador fez verdadeira mágica e, como hábil prestidigitador, fez sumir sua cédula única, depositando na urna seu envelope vazio. O artista: vereador Nicanor Fidelis de Moura, cuja cédula, identificada por exclusão, foi a única não contabilizada na apuração. Em meio à perplexidade geral reinante, fato hilário: Hamilton Moraes, de corpo avantajado, empurra seu vice-presidente, homem franzino, dizendo ao tempo em que quase o arranca da cadeira: ?O pedido de cassação não foi aceito?. ?Sou o presidente e quero meu lugar?. Não existisse um clima de velório, com certeza, tal fato teria arrancado dos presentes gostosas gargalhadas. Redigi a matéria para publicação na GAZETA do dia seguinte e viajei para minha cidade natal com o conterrâneo Geraldo Bulhões (GB), então adjunto de promotor substituindo Claudenor Sampaio na Promotoria de Pão de Açúcar. Já alta noite, participando da Festa da Palma que acontecia em Santana do Ipanema, soubemos da noturna convocação de suplentes que, participando de outra sessão extraordinária, votaram pela cassação dos citados vereadores, incluindo, desta feita, entre os punidos o prefeito Sandoval Caju. Este fato trazia como potencial conseqüência a mesma punição a GB no exercício da promotoria. O titular deixando de ser vereador nesta cidade, automaticamente poderia assumir seu cargo. Outra matéria foi feita relatando os últimos acontecimentos. Nenhuma palavra foi publicada sobre a sessão anterior nem sei o que foi feito do texto original. Voltei a esta capital e continuei meu trabalho. Não costumava guardar minhas notas, até porque nunca tivera a desagradável experiência de ser censurado. Procurei não ficar lembrando o episódio. Não sei quem fez a matéria que substituiu a que estava no prelo. Agora, registrando a atitude de um homem de bem de quem não pude apertar a mão parabenizando-o por sua coragem, homenageio Nicanor Fidelis, único edil que votou contra o arbítrio e que, não podendo exercer seu direito de livre manifestação, não compareceu à sessão convocada por imposição ilegítima. Assim, espero estar contribuindo para que nosso país nunca mais venha a sofrer os males de uma quebra da normalidade democrática. (*) é engenheiro civil

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