Opinião
Abril turvo?
Os últimos dias foram pródigos em análises sobre o golpe militar de 1964. Não se colocam comparações mecânicas com os dias de hoje, é evidente. No entanto, entre os pretextos para a eclosão do golpe, naquela ocasião (entre as denominadas ?reformas de base?) figurava a questão da reforma agrária. Passados 40 anos, a situação no campo brasileiro é singular. De um lado, os agronegócios mostram a pujança da moderna agricultura, com exportações crescentes e se consolidam como um dos principais responsáveis pelo excelente desempenho da nossa balança comercial. Do outro, se agrava o velho problema dos ?que querem terra para nela trabalhar?. A modernização acelerada no campo brasileiro foi liberando um número cada vez maior de trabalhadores rurais, sem contrapartidas do governo federal no sentido de serem oferecidas alternativas de sobrevivência no campo para este contingente. As políticas públicas levadas a efeito neste terreno nunca se transformaram, para usar um jargão, em um único ?case de sucesso? que fosse. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) anunciou ? ou ameaçou ? para este mês o que denominou de ?abril vermelho?. Em virtude disso, foi comparado com perigosos terroristas internacionais por alguns (outros sugeriam seu indiciamento judicial por incitamento contra a propriedade privada) e saudado por outros; e o governo federal tremeu nas bases, num momento onde situações delicadas e perigosas já são abundantes. O caso mostrou que a questão da reforma agrária no Brasil continua a ser um tema muito explosivo e que segue a provocar grandes tensões políticas. Nessa conjuntura, o coordenador nacional do MST, João Pedro Stélide, aliviou o tom e corrigiu: ?Nunca falei em ocupações, mas em mobilizações. Abril vermelho foi uma linguagem figurada que usei para estimular os companheiros a reerguerem as bandeiras vermelhas, que simbolizam nossa luta. Não disse aquilo como bravata, mas numa plenária de movimentos sociais?. Apesar do esforço verbal, não baixou a temperatura anunciada para abril, que sugere matizes cromáticos que deveriam estar superados há 40 anos.