Opinião
Democracia e crescimento
A Organização das Nações Unidas divulgou os resultados de uma pesquisa realizada em 18 países da América Latina (dentre eles Brasil, Argentina, México e Venezuela) sobre a democracia na região. A pesquisa ouviu 18.643 pessoas e 56,3% dos entrevistados dão maior importância ao desenvolvimento econômico que a democracia. E, como sabemos, até meados da década de 80, eram várias as ditaduras no continente. De lá para cá, o período das chamadas liberdades democráticas na América Latina foi também o período de agressiva campanha globalizada. O desmonte dos estados nacionais, sob o nome de modernidade, levou a abertura desorganizada dos mercados, privatizações de ativos públicos (inclusive de empresas estratégicas) e, principalmente, da implantação de políticas econômicas submissas aos poderosos donos da globalização. Na década de 90, independentemente do tamanho da economia de cada país e de seus problemas específicos, a América Latina foi submetida a uma política ditada pelo Consenso de Washington, que provocou o agravamento da crise social e o aumento da concentração de renda. Atualmente, 43,9% da população latino-americana vive abaixo da linha de pobreza e a apropriação da renda pelos 20% mais ricos atingia 55% da renda da região, enquanto os 20% mais pobres ficam com apenas 4,8%. As conclusões do levantamento da ONU não chegam a ser surpreendentes. A crise econômica é fruto da crise política. Segundo a tal pesquisa, o poder político dos presidentes dos países da América Latina seria apenas formal, o parlamento seria pouco representativo e existiria uma ligação promíscua entre o interesse público e o privado. O estudo alerta ainda que a ?sustentabilidade da democracia depende da redução dos níveis de pobreza?. A falta de originalidade na condução da política econômica é apontada pela pesquisa da ONU como um dos principais problemas da economia da região. O pensamento único, a falta de alternativas e o apego às questões técnicas levaram a citada pesquisa a concluir que ?o bem-estar de uma sociedade não se decide em laboratório de técnicos?. No futebol, os técnicos costumam dizer que em time que está ganhando não se mexe. Mas parece que na economia (pelo menos a brasileira) é diferente: o time não ganha, mas nele ninguém mexe. Até quando?