Opinião
Diagn�stico e receitas
Relatório divulgado nesta semana pelo Fundo Monetário Internacional, intitulado Panorama Econômico Mundial, faz uma análise da conjuntura econômica da América Latina e do Brasil em particular. E aponta a enorme dívida pública brasileira (equivalente em termos brutos a mais de 80% do PIB), como responsável pela nossa ?vulnerabilidade significativa, particularmente na eventualidade de uma deterioração das condições do mercado financeiro ou de mudanças de políticas que afetem a confiança dos investidores?. O FMI sugeriu alguma medida adicional para diminuir a vulnerabilidade externa do Brasil? Pelo contrário. Segundo o economista-chefe da instituição, o governo brasileiro estaria ?tomando medidas eficazes para reduzir as vulnerabilidades?. O mesmo pensa o presidente do Banco Central brasileiro, que assegurou em encontro com investidores em Wall Street, ?que nós estamos seguindo na direção correta, os números mostram que as políticas estão trazendo sucesso e o Brasil continuará seguindo esse caminho virtuoso?. Não poderia ser diferente a posição do FMI, pois a ampla maioria dos países latino-americanos (o Brasil inclusive) reza segundo a cartilha ortodoxa do Fundo. Contudo, apesar de não fazer nenhuma mea-culpa (afinal todos os países criticados seguem religiosamente o receituário do FMI), o relatório reconhece o crescimento da desigualdade na região e as persistentes altas nas taxas de desemprego, fruto do baixo crescimento econômico da região na última década. O principal fator que provocou o baixo crescimento econômico da região e do Brasil em particular foi a política econômica de formidável arrocho fiscal, ancorada nas elevadas metas de superávit primário. Os resultados visíveis foram o agravamento da crise social, o desemprego em massa e o aumento desenfreado da criminalidade. Um resultado ?invisível? que não pode ser esquecido: apesar do agressivo ajuste fiscal brasileiro, a dívida pública que era o objetivo a ser equacionado, e que em 1994 equivaleria a 30% do PIB, hoje encontra-se em 57,6%. Uma tragédia de conseqüências imprevisíveis. É hora do próprio FMI começar a pensar em outras rezas em sua cartilha, pois a economia de seus pupilos latino-americanos está indo para o fundo do poço sem fundo.