Opinião
LAMPEJOS DE DON JUAN
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Otimismo sempre foi a praia de Jesualdo, e apesar de não ser possuidor de uma compleição física das melhores, ele se achava bonito. Casou mas nunca perdeu o charme.
Era final de tarde, vinha realizando o meu habitual exercício diário, quando ao passar bem próximo aos dizeres “Eu amo Maceió”, na Pajuçara, escutei alguém chamar meu nome. Olhei rapidamente e vi Jesualdo, com uma feição que nem de longe combinava com a sua permanente altivez, seu jeito de “Don Juan”. Rapidamente, lhe perguntei o que estava a fazer ali. “Estou aqui apreciando o movimento!”, respondeu ele. Questionando sobre o motivo de tamanho baixo astral, ele afirmou estar ali, já há quase sessenta minutos, e para sua tristeza, quando passava uma garotinha, falava com ela e todas respondiam: “Boa tarde, como vai o senhor”. Indagando qual o problema, ele respondeu não aceitar ser tratado tão respeitosamente. Tentei minimizar o seu sentimento, afirmando que tal fato também acontecia comigo, por somente quase me chamarem de senhor. E fui mais longe, recomendando que a partir de agora nessas situações ele começasse a ser norteado pela cabeça pensante. Dá menos problemas e fica bem mais barato, observei. Foi quando Jesualdo confidenciou que estava com um problema sério em casa, apesar de acreditar estar o mesmo quase contornado. Imediatamente, ele começou a me contar: “Sabe, Rostand, Gerusa, minha esposa, é uma figura fantástica, sempre nos demos muito bem, mas para mim, já na casa dos sessenta, mulher nova é a fonte da juventude!” Semana passada, continuou ele, “Gerusa me convidou para no sábado à noite ficarmos em casa. Ela havia encomendado tira-gostos e pratos principais em restaurantes de nossa predileção, tomaríamos um bom vinho e assistiríamos ao filme “Cine Paradiso”, que eu tanto adoro. Apesar de tal confraternização a dois não acontecer rotineiramente, topei encarar o programa sem sacrifício”. “Tudo preparado, mesa posta, os alimentos já haviam chegado, o vinho refrescado ao ponto, água com gás, banho tomado, cheiroso como se fosse passear na rua, estava certo que faria uma excelente média e posteriormente teria alvará tipo “vale night” por no mínimo um mês. Ela chegou, cheia de boas intenções, trazendo um pen drive na mão, inserindo-o na smart tv da sala e iniciou a projeção” - prosseguiu. “Quase morro de susto - continuou ele - quando a película apresentada mostrou cenas nas quais o artista principal era eu, seu amigo Jesualdo, aos beijos e abraços com uma jovem lindíssima que conhecera dias antes em uma barraquinha da praia.” “Meu mundo caiu, Rostand. Por pouco não enfartei, pois fui obrigado a me assistir xumbregando com a moçoila por quase uma hora, ouvindo sermões intermináveis”, afirmou. “Comecei a chorar muito, ajoelhei aos pés de Gerusa, pedi mil desculpas, mas a noitada de alegria foi por água abaixo. Fui obrigado a dormir no quarto dos hospedes”, lamentou. Jesualdo disse nunca ter imaginado que a esposa contrataria alguém para lhe seguir, mas se mostrou arrependido e até certo ponto otimista. “Acho que Gerusa está disposta a esquecer. Não sei o que fazer, vou começar a me comportar. Errei, mas sou inocente, pois nesse caso, fui curiosamente seduzido pelo conto de fadas” - finalizou. Antes de retornar aos exercícios, abracei o amigo e desejei a ele juízo e boa sorte.