Opinião
13 de maio
Há 122 anos foi assinada a lei Áurea que instituía o fim da escravidão no Brasil. Depois de quase quatro séculos de exploração, a lei soou como uma concessão e hoje esperam que comemoremos e idolatremos princesa Isabel. Poucos sabem que na época da abolição eram raros os negros ainda escravizados, e que ela foi assinada com o intuito de cumprir uma exigência internacional e para os dominantes não serem desmoralizados com a falta de pulso frente à mudança do sistema vigente. A escravidão já estava fadada ao fracasso com a formação dos quilombos, as fugas, as insurreições urbanas e, principalmente, pela cultura negra, que apesar de reprimida, infiltrou-se na cultura branca tornando-a morena. O sistema escravocrata exigia a alienação da humanidade de suas vítimas com intuito de explorá-las até o limite de suas forças e assim alcançar a famosa acumulação primitiva. Porém, como um sistema contraditório, a escravidão ao exigir a desumanização do africano e seus descendentes alienou-se a si própria ao escamotear a impossibilidade dessa exigência. Rebelando-se, os cativos não só ?reumanizavam-se? como desestruturavam o sistema. A África construiu esse país, mas nunca foi de fato reconhecida por isso, ao contrário, a capoeira era proibida por lei, os sambas, o Candomblé. E hoje, mesmo não sendo proibidas tais manifestações da africanidade, são no máximo toleradas, quando não são rechaçadas e destituídas de valor. Por isso, o 13 de maio não é dia de comemorar, mas dia de refletir sobre que liberdade é essa que querem nos impor como padrão: uma liberdade condicionada aos desejos e interesses dos que se estabilizaram numa posição confortável graças à subjugação da maioria da população brasileira. Liberdade não se ganha, se conquista, assim como respeito e dignidade. A liberdade do povo negro e do povo não negro brasileiro precisa ser alcançada através da desconstrução sincera dos preconceitos e racismos que insistem em nos assolar mesmo que não admitamos. A liberdade tem que estar presente no direito do movimento negro reivindicar justiça por tantos anos de opressão e omissão cobrando cotas nas universidades, direito de serem representados na mídia, direito de serem considerados bonitos com seus cabelos crespos, lábios grossos e tantas e quantas características forem atribuídas à afro-descendência. Liberdade é reconhecer nossa limitação frente aos outros, ao diverso. É o respeito à diferença sem impor padrões e cobrar generalizações. 13 de maio: dia de afirmação de uma ainda insistente invisibilidade da população negra, dia de mobilização, de luto pelos ancestrais desterrados e maltratados, mas principalmente, dia de comunhão de uma história em comum que ainda precisa ser justiçada! (*) É mestra em Psicologia Social, pesquisadora em Relações Raciais ([email protected]).