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Opinião

Um consolo das almas

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Para Monteiro Lobato, “A arte nasce da dor, como a pérola”. Historicamente, as pandemias tiveram na música além do registro, um refúgio, uma forma de resistência, como afirmou Guillaume de Machaut ao compor “Nes que on Porroit”, canção alusiva à devastação da Peste Negra que assolou a Europa de 1348 a 1352, inspirada nas multidões desesperadas que, imaginando que a humanidade estava perdida, abriam mão de seus bens, iam para as ruas para festejar sem medo a morte, as chamadas Festas de Peste. John Cooke, ainda sob a vigência dessa pandemia, em 1400, compôs “Stela Celi”, onde clamava pela ajuda de uma “estrela do céu” para derrotar a praga. Bach, símbolo maior do barroco protestante, a usou como súplica religiosa ao compor a Cantata B W 25, em 1723, na última grande contaminação da Peste Bubônica que devastou Marselha e causou mais de 100 mil mortes na Europa. A Gripe Espanhola inspirou Blind Willie Johson a compor o blues “Jesus is Coming Soon”.

José Geraldo Mourinho escreveu: “A música absorve o caos e o ordena”. Foi assim que muitos atravessaram a pandemia e mantiveram a cuca fresca. O maior drama da pandemia no Brasil é o número absurdo de mais de 613 mil de mortes. Levando em consideração que cada uma das mortes causa intenso impacto emocional em cerca de 100 pessoas, são cerca de 63 milhões de pessoas severamente afetadas. O segundo efeito nefasto foi a crise econômica e o aumento da miséria, inclusive da desalentadora fome. O terceiro foi menos debatido e terá enormes efeitos a médio e longo prazos: a catástrofe na área cultural. O desastre foi sobre todo o setor cultural, em especial o teatro e a música. Atrás de cada nome fulgurante que possuía reservas para a crise, havia uma multidão de nomes quase invisíveis, de iluminadores, cenógrafos, auxiliares de produção, pessoal da bilheteria, divulgadores e tantos outros que viviam mês a mês do que recebiam. De repente nada mais entrava... Não sabemos quando sairemos da escassez. É difícil enxergar oásis nesse deserto. Sabemos apenas que para atravessar a tormenta que teima em persistir, anabolizada nas redes sociais pelas afrontas ao bom senso, pelos atentados à ciência, pela insanidade da desinformação e das fake news e pela promoção do ódio, necessitamos de música para serenar os exaltados ânimos, pois na mesma internet temos os aplicativos musicais e o YouTube, com as suas preciosidades musicais. Precisaremos de música e serenidade para saber o que fazer no novo momento. O dia 22 de novembro foi Dia do Músico. Que eles sobrevivam com muita saúde, força e tenacidade para continuar nos consolando e nos aproximando. Para almejar até o que Congreve escreveu: “A música tem encantos pra abrandar o coração mais selvagem”.

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