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Opinião

A Ômicron e suas ameaças

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Por Marcos Davi Melo - médico e membro da AAL e do IHGAL | Edição do dia 04/12/2021 - Matéria atualizada em 03/12/2021 às 21h24

Em sua obra “A História da Inglaterra”, Thomas Macaulay descreve que 1/3 dos londrinos tinham marcas de varíola, virose que matava 600 mil europeus anualmente. As epidemias vinham desde a Antiguidade (a múmia de Ramsés V tem marcas da varíola). Foi do Oriente que lady Mary Montagu, esposa do embaixador inglês em Constantinopla, trouxe o procedimento chamado variolização, que consistia em inocular o material de pessoas acometidas da variedade benigna de varíola (varíola minor, chamada de alastrim no Brasil). A variolização protegia em alguns casos, mas em outros promovia doença franca. Foi o médico Edward Jenner (1749-1823), um médico do interior, quem depois de 20 anos de estudos aprimorou o método e introduziu a vacina contra a varíola. A Royal Society, elite dos médicos ingleses a desprezou. Outros países, entretanto, a valorizaram. Na Guerra Franco-Prussiana (06/1870-04/1871), isso foi demonstrado dramaticamente: a Prússia, que tornou a vacinação obrigatória, perdeu 297 soldados; a França, cuja vacina não era compulsória, perdeu 23.400 combatentes.

A Ômicron, segundo a OMS, é uma variante de preocupação e com risco elevado. A principal razão desse alerta é o número recorde de mutações contidas nessa cepa. Foram encontradas 32 mutações na proteína “spike”. Na variante delta, altamente infecciosa, foram encontradas 8 mutações. Ao mesmo tempo que o número de mutações da variante não é uma indicação exata do quão perigosa elas podem ser, isso sugere que o sistema imunológico humano pode ter maior dificuldade para reconhecê-las e combatê-las. A OMS admite que serão necessárias várias semanas para compreender os seus níveis de transmissão e virulência, todavia, há sinais de que ela se espalha mais rapidamente, e que também aumentaria a chance de uma pessoa que já tenha sido contaminada de voltar a ser infectada, embora formas severas de adoecimento ainda não tenham sido diagnosticadas. O risco temido pela ciência de que novas cepas com elevadas mutações possam fugir ao controle dos imunizantes, supervaloriza as vacinas de RNA da Pfizer e da Moderna, concebidas com aptidão para aprimorar e adequar tempestivamente as suas atuais vacinas à Ômicron e a novas variantes. A ANVISA recomenda o passaporte de vacina para entrar no Brasil e no acesso a ambientes públicos fechados, como é regra no mundo. Deve-se evitar a realização de réveillon e carnaval, manter o uso de máscaras, e principalmente avançar na vacinação completa. Quanto mais o vírus circular, mais elevam-se as possibilidades de variantes novas aparecerem. O mundo só conseguirá vencer a pandemia de COVID-19 quando todos os países e a África forem totalmente vacinados. As dificuldades de logística no continente africano para concretizar isso na prática precisam ser compartilhadas pelos países ricos. Enquanto o mundo não estiver vacinado, a ameaça de novas variantes agressivas e resistentes às vacinas permanece concreta.

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