Opinião
Qual médico você quer para o seu país?
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Historicamente, a sociedade referencia o médico como um dos profissionais mais essenciais e confiáveis, o que ficou comprovado durante a maior crise sanitária da nossa geração, a pandemia de Covid-19. Porém, é preciso alertar a sociedade que a profissão corre sério risco diante da abertura desenfreada e sem rigor de novas faculdades de medicina nos últimos anos. Esse fato coloca em risco a qualidade de parte do serviço a ser ofertado à população num futuro não tão distante.
Hoje, o Brasil já possui 353 instituições que ofertam cursos de medicina, 247 delas abertas nos últimos 20 anos - sendo 179 particulares. Hoje, o País tem 170 mil acadêmicos de medicina e 49 mil novas vagas anuais para cursar a profissão. Números que serão somados aos mais de 500 mil médicos já em atividade. A projeção é que esse índice fique próximo a 1 milhão de profissionais no fim desta década. Acima da defesa do direito de cursar medicina, é preciso reforçar a preocupação com a qualidade dos profissionais que estão se formando em determinados casos. Um exemplo claro que precisa ser levado em conta é que quase 25% das faculdades de medicina funcionam atualmente em municípios que não atendem nenhum desses quatro pré-requisitos básicos: no mínimo cinco leitos públicos para cada um aluno; no máximo três alunos para cada uma equipe de atenção básica; um hospital com mais de 100 leitos exclusivos para o curso; um hospital ensino ou unidade hospitalar “com potencial para hospital de ensino”. Atualmente, menos de 20% das instituições de ensino na área funcionam em localidades que cumprem todas essas exigências. Na saúde, uma estrutura adequada é fundamental. Isso vale para a formação e capacitação dos futuros profissionais de medicina. Se faltar sala de aula, professor ou hospital anatômico, os alunos vão protestar, os jornais vão noticiar e os médicos vão lembrar que avisaram sobre os riscos. Porém, mesmo assim, apesar da falta de condições, o curso de medicina autorizado sem o rigor necessário que a profissão exige não irá fechar. E o médico que se formar nessa instituição, que deveria significar solução, poderá ser facilmente julgado como um problema. O País precisa se preocupar mais com qual régua quer medir as políticas públicas de saúde - a regra da excelência ou da mediocridade. Cuidar da saúde e da vida das pessoas é uma atividade que exige o máximo de sabedoria, teórica e prática. Qual médico você quer para o seu país? É preciso mais atenção em relação a essa questão que pode ser crucial na história de uma das carreiras mais complexas e valiosas da humanidade.