Opinião
Farinha e caviar
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os resultados da Pesquisa de Orçamento Familiar, relativos ao período 2002/2003, mostrando enormes mudanças ocorridas nos hábitos de consumo dos brasileiros em relação ao último levantamento sobre o mesmo assunto (o Estudo Nacional de Despesa Familiar, realizado entre 1974 e 1975). Na mesma comparação, fica evidente a ampliação da pobreza no País. A modernização e a urbanização criaram novos hábitos de consumo entre os brasileiros. Enquanto no levantamento anterior as despesas com alimentação comprometiam 33,91% dos rendimentos das famílias, em 2003 tinham se reduzido para 20,75%. Outros gastos passaram a fazer parte do cotidiano do orçamento familiar como, por exemplo, telefone fixo e celular. A urbanização do Brasil também correspondeu a aumentos dos gastos com energia elétrica, transportes e habitação, dentre outros. Ter recursos para gastar com esses itens passou a ser tão importante quanto o dispêndio com alimentação. Agora, a pauta de consumo mínimo dos mais pobres não se restringe à comida. Existem outros itens essenciais ao seu bem-estar, que devem ser levados em consideração na definição dos programas sociais. No entanto, mesmo com a redução dos preços dos alimentos nos períodos pesquisados (1974-1975 e 2002-2003), isso não foi suficiente para que o consumo das famílias mais pobres (orçamento doméstico menor que R$ 400,00) sofresse grandes alterações; continuam consumindo mais carboidratos (açúcar, arroz, farinha e feijão), enquanto as famílias com rendimentos acima de R$ 6 mil mensais consomem mais arroz, carne bovina, leite e pão. Se é verdade que o brasileiro urbano hoje tem acesso a produtos e serviços mais sofisticados e que já se incorporaram ao seu cotidiano, é também verdade que esse fato não veio acompanhado de uma melhora significativa no seu nível de vida, muito pelo contrário. O brasileiro continua vivendo no sufoco, tanto é assim que 50% das famílias que vivem com rendimentos de até R$ 400,00 não conseguem cobrir suas despesas mensais, o mesmo acontecendo com 39,62% daquelas que auferem ganhos de até R$ 600,00. Resumindo: para 85% das famílias brasileiras, ao fechar as contas do mês, o apurado é (bem) menor que o devido.