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Opinião

Acreditar em coisas estranhas

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Um surto de gripe (vírus influenza H3N2) enche os ambulatórios do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Manaus, causa internamentos recordes, mais óbitos do que em 2019 e 2020 juntos: a mutação australiana o faz escapar das vacinas. A variante Ômicron se espalha com velocidade recorde na Europa, eleva o número de casos novos e de óbitos. A ciência explica: 1) vários modelos matemáticos já previam que, com a redução de casos da pandemia, apareceriam surtos de influenza, pois a vacinação para ela reduziu e as máscaras e distanciamento social ajudaram a contê-lo nesse período; 2) na Europa e EUA, a variante Ômicron infecta principalmente os muitos não vacinados, mas acaba atingindo e adoecendo até os vacinados, principalmente os idosos.

Pergunta: existindo vacinas eficazes, por que existem tantas pessoas que não se vacinaram e ainda fazem propaganda contra elas? O psicólogo Leon Festigner responde: “Um homem com uma convicção é um homem difícil de mudar. Mostre-lhe fatos ou estatísticas e ele questiona suas fontes. Apele à lógica e ele não enxerga seu ponto”. As pessoas tendem a acreditar em fake news que tenham alguma relação com suas crenças preexistentes. É o chamado Viés de Confirmação. Quando demonstramos à pessoa que se trata de uma notícia falsa, disparamos nela uma espécie de mal-estar psicológico, a chamada Dissonância Cognitiva. Daí, a sua resistência em admitir a falsidade da informação na qual crê. Para aliviar essa tensão psicológica, em vez de admitir que compartilhou algo falso, uma estratégia mental comum de que o indivíduo pode se valer é a ativação do Raciocínio Motivado, fenômeno que completa o trio traiçoeiro da psicologia. Basicamente, o Raciocínio Motivado é o Viés de Confirmação com anabolizantes. Processamos informações de acordo com nossas crenças de forma muito distinta da maneira como processamos as que contradizem as nossas convicções. Assim, se nos deparamos com uma informação que “bate” com o que já acreditamos ou queremos que seja verdade, rapidamente a aceitamos como verdadeira, factual, e vida que segue. Por outro lado, quando somos expostos a dados que entram em contradição com uma crença consolidada, imediatamente, buscamos encontrar falhas (ainda que inexistentes) nessa nova informação para podermos descartá-la. E, consequentemente, mantermos nossas crenças, mesmo comprovadamente equivocadas. O negacionismo e ideologias radicais se retroalimentam nisso. Diante do negacionismo, a neurociência e a psicologia respaldam as autoridades para agir e evitar prejuízos ainda mais drásticos para a população. Incrementando a vacinação generalizada e as doses de reforço, mantendo o uso das máscaras e evitando aglomerações (ajudam também na proteção contra o H3N2), implementando a vacinação de crianças urgentemente, e o passaporte de vacinação com rigor, as estatísticas mostram que ele induz a vacinação até dos negacionistas. A boa fé e o bom senso vencerão.

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