Opinião
O homem não é nada; a obra é tudo
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O tempo é mesmo de efervescência acadêmica na literatura, não só por aqui. Em recente editorial do jornal “El País” da Espanha (“Vargas Llosa en la Académie, 03 DIC 2021”), interessantes colocações foram feitas sobre o ingresso na Academia Francesa (Académie Française) do escritor peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de 2010, residente na cidade de Madrid. Eleito em 25/11/2021, o novo membro ocupará a Cadeira 18 da Casa fundada pelo Cardeal de Richelieu. O fato não é inédito, mas incomum, até pelos 85 anos de idade do laureado e por este não ter escrito nenhum livro em francês; basicamente, a decisão “consagra o alcance universal da sua obra”.
Vargas Llosa, que há bom tempo faz parte da Academia Peruana da Língua e da Real Academia Espanhola (tem a dupla nacionalidade), entre os escritores em atividade é visto como o de maior importância e abrangência de gêneros. À láurea acadêmica também foi levado em conta o período que ele viveu em Paris, entre os fins dos anos de 1950 e início dos de 1960 (fala francês - foi tradutor). Na Cidade Luz escreveu parte do seu primeiro grande sucesso, “A cidade e os cachorros”.
Relevante, na escolha, foi a “imersão formativa na obra de Jean Paul Sartre” e de outros vultos da literatura francesa, fundamentais ao desenvolvimento do escritor. A matéria ainda destaca que Vargas Llosa “é o único autor vivo, junto a Milan Kundera, com obra própria na coleção de clássicos “A Plêiade da Gallimard”, da centenária e prestigiosa editora Gallimard”, da França, referência no mundo literário. No sentido da proximidade intelectual, outro francês com confessa influência em Vargas Llosa é o escritor Gustave Flaubert, que completou duzentos anos de nascimento em 12/12/2021, autor do monumental “Madame Bovary“, símbolo do realismo e da moderna literatura, um obstinado pela palavra certa e sonoridade perfeita das frases. Ao ler “Madame Bovary” pela primeira vez, por uma noite inteira, Vargas Llosa concluiu que “sabia a classe de escritor que queria ser, e, graças a Flaubert, começava a conhecer todos os segredos da arte da novela”, conforme relatou em novo artigo no mesmo ”El País” (“Doscientos anos, 19 DIC 2021”). Bem antes disso ele já tinha admitido que ”lhe deve tudo”.
Para Flaubert, escrever era tudo que lhe interessava na vida, a única coisa. Tinha um comportamento arredio. Não chegou a fazer parte da Academia Francesa. Uma lacuna em que residem grandes arrependimentos. Percebendo o ocaso da vida, afirmou que “o homem não é nada; a obra é tudo”. A bibliografia de Vargas Llosa comporta os gêneros ficção, ensaio, memória, artigo, crítica literária e teatro. Sem surpresa, é no campo da ficção onde se encontra o principal sucesso de sua obra. Entre outros livros podemos destacar “A Cidade e os Cachorros”, “Conversa na Catedral”, “Pantaleão e as Visitadoras”, “Festa do Bode” e “A Guerra do Fim do Mundo”. Quanto “A Guerra do Fim do Mundo”, obra inspirada no livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, membro da Academia Brasileira de Letras, ocorreu que – fascinado com a história da Guerra de Canudos, a saga de Antônio Conselheiro no sertão da Bahia, dom Mario, o superimortal, visitou esta região do nordeste brasileiro, em mais de uma oportunidade, para conhecer, pesquisar e sentir de perto o ambiente da dramaticidade severa do enredo. Isto muito nos orgulha.
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