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Opinião

A fogueira das milícias

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Por Marcos Davi Melo - médico e membro da AAL e do IHGAL | Edição do dia 15/01/2022 - Matéria atualizada em 14/01/2022 às 21h52

No dia 22 de junho de 1633, o astrônomo Galileu Galilei, considerado por muitos o criador do método científico, recebia a sua sentença frente a um tribunal da Inquisição. Pela acusação de defender o modelo de Copérnico, em que a Terra girava em torno do Sol, Galileu foi considerado um herético, forçado a repudiar as ideias heliocêntricas e sentenciado a prisão domiciliar, além de ter sua obra “Diálogo” incluída no Index de Livros Proibidos do Vaticano. Muitos cientistas, como Miguel de Servet, espanhol que ficou conhecido por propor os primeiros modelos de circulação pulmonar do ser humano, Giordano Bruno, que escreveu um livro percussor de astronomia, foram queimados vivos na fogueira. Com o advento do telescópio e a observação da Lua e dos planetas, a Igreja evoluiu e, atualmente, o Papa Francisco é um grande defensor da ciência e das vacinas.

Há dois anos, uma pesquisa do Instituto Datafolha apontou que 7% dos brasileiros acreditam que a Terra seja plana. Esse grupelho ganhou impulso na pandemia de Covid-19 pela internet, como negacionistas da ciência. Catapultados na forma de um movimento antivacinas, acendeu fogueiras obscurantistas. Uma das principais diferenças observadas pelos cientistas é que a oposição à ciência deixou de ter um cunho religioso e se manifesta através de extremistas de direita. “Para adquirir conhecimento, é preciso estudar, mas para adquirir sabedoria, é preciso observar”, escreveu Marilyn Von Savant. Nem o recrudescimento com a cepa Ômicron, que lota emergências e hospitais, infectando basicamente pessoas não vacinadas ou vacinadas incompletamente, sensibiliza as milícias antivacinas, pois elas não gostam de estudar e nem ao menos observar. Essas milícias combatem as vacinas, as máscaras e o distanciamento social, mas apoiam que membros do governo viagem na classe Executiva para “evitar contágios na pandemia”. O almirante Barra Torres, presidente da Anvisa, e seus exemplares servidores foram acusados até de corrupção, mas a causa verdadeira foi o fato de terem liberado corretamente as vacinas para as crianças de 5 a 11 anos, sendo em decorrência, perseguidos como se fossem criminosos e ameaçados de morte. Foram acusados pelos mesmos que defendem que as urnas eletrônicas eram fraudadas e que a vitória do atual governo teria ocorrido no primeiro turno das eleições de 2018. Essas milícias extremistas precisam ter um freio antes que a sua violência se concretize. Ou a PGR age pra valer no sentido de defender a vida humana ou responderá por cumplicidade nessa fogueira da Idade Média.

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