Opinião
ENTREMONTES ( II )
.
No prumo de Piranhas, percorridas cinco léguas pelo Rio São Francisco desde Pão de Açúcar, por volta das dez horas do dia 18 de outubro de 1859, o corresponde do Jornal da Bahia, que acompanhava a excursão do Imperador D. Pedro II à Cachoeira de Paulo Afonso, esboçou o seguinte registro: “[…] á direita, rio acima ostenta-se o morro do Armazem, onde ha um elegante povoado, que tinha antigamente o nome de Armazem, mas que hoje se conhece por Entre Montes. / É collocado entre varios montes; mas, como não fica completamente na baixa, é bastante arejado, mesmo nas horas de maior calor”.
No mesma ocasião, o correspondente assinalou: “Esse povoado é bastante extenso; tem cerca de 80 casas, uma capella, uma escola e cemiterio. / Tem algumas casas de commercio que prosperão, entretendo communicações com os povoados de cima e fazendo suas provisões no Penedo e principalmente na Bahia” (Cachoeira de Paulo Affonso. Viagem Imperial. “Correio Mercantil”, Rio de Janeiro, 2 e 3 nov. 1859, p. 2).
Anacleto Brandão – avô do historiador alagoano Moreno Brandão, autor da “História de Alagoas” (1909) – foi o cicerone e principal interlocutor do imperador em sua rápida passagem por Entremontes. Conforme anotou D. Pedro II: “A povoação, segundo me disse o Anacleto será de 300 habitantes; elle ahi tem uma loja, mas o commercio é menor que nas Piranhas, onde m’informaram que andava no anno de 300 a 400 contos” (notas editadas por Alcindo Sodré e publicadas sob o título “Visita de D. Pedro II à Cachoeira de Paulo Afonso” no Anuário do Museu Imperial de 1949. p. 141).
Os testemunhos sobre Entremontes, no entanto, por vezes divergem, entre os homens de imprensa que acompanharam a excursão imperial à Cachoeira de Paulo Afonso. José Vieira Rodrigues de Carvalho e Silva, por exemplo, registrou: “Em uma restinga de cascalho está o porto do Armazem – povoado novo e de pouca importancia – com 48 casas e uma pequenina Capella da Senhora da Conceição […]. Tem o Povoado pouca planicie, que está captiva e abafada entre dous principaes Morros – tendo em frente Serrarias. / O Commercio é de poucos, é perfeitamente a porta sobre o Rio que tem mais facilmente os produtos da Mata Grande – hoje Villa, e Comarca. Até aqui fazem 5 leguas os que vem de Pão d’Assucar, e os vindos da Barra, ou foz como eu, fazem 36 leguas” (Viagem ás Caxoeiras de Paulo Affonso, “Revista do IHGB”, n. 22, 1859. p. 265). Em diálogo com os testemunhos acima transcritos, assinalemos algumas questões. Primeiro, à época da visita do imperador, em 1859, tanto Entremontes quanto Piranhas eram povoados do município da Vila de Pão de Açúcar, que fora desmembrado de Mata Grande pela Lei Provincial n. 233, de 03 de março de 1854. Segundo, a denominação “Entremontes” é anterior à passagem do Imperador D. Pedro II e, ao contrário do que a tradição local difunde, não foi legada pelo monarca ou sua filha, a princesa imperial Dona Isabel, que nunca sequer passou diante do antigo Armazém.
A capela e o cemitério edificados pela família Brandão ainda estão lá, preservando muito da sua originalidade, das suas feições oitocentista de meados do século. A escola que lá encontrei talvez seja descendente direta daquela referida pelo correspondente do Jornal da Bahia, em 1859. Refiro-me à Escola Municipal Dom Antônio Brandão, unidade que oferece o Ensino Fundamental completo e que tem como patrono o primeiro bispo da antiga Diocese de Alagoas, Dom Antônio Manuel de Castilho Brandão (1849-1910), neto criado por Anacleto Brandão e sua esposa Maria Francisca.
Jacqueline Rodrigues, nossa anfitriã em Entremontes, também lembrou-me da Unidade Básica de Saúde Djalma Gonçalves dos Anjos, que socorre a população local; da Quadra de Esportes José Martins Lisboa, vis-à-vis com a escola municipal; e do Estádio Municipal Antônio Araújo Gonçalves, com localização privilegiada, em um terraço fronteiro ao Rio São Francisco. Além disso, concordou comigo sobre o número aproximado de domicílios na sede do distrito: pouco mais de duzentas casas. Não tive notícias precisas sobre o número de habitantes, que deve girar em torno de 1200, conforme Jacqueline, que é proprietária rural e estudiosa da região. Ao que parece, as tradicionais atividades agropastoris são de pouca monta no distrito. Maior destaque pareceu-nos ter a pesca, obviamente, e o comércio de bordados, sob os influxos de ações turísticas planejadas e executadas a partir da cidade de Piranhas.