Opinião
Entremontes ( III ): a “Casa Pedro II”
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Avistei-a pouco depois de apearmos na pracinha do povoado. Ela estava lá: senhorial, sóbria, vetusta. Pouco diferia das fotografias mais ou menos antigas que dela vira. Apenas o tom do verde sobre a parede da fachada estava mais avivado, o que me levou a pensar que havia sido recentemente pintada. Agora, o verde de sua face flerta com o azul, uma cor que recentemente descobri chamar-se Sete Quedas, coincidentemente, a mesma que escolhi para as paredes do meu minúsculo apartamento na capital de Sergipe.
É uma casa térrea, de esquina, voltada para noroeste. Para quem, estando de costas para a Igreja Nossa Senhora da Conceição, posta-se na quina noroeste da Praça José Araújo Fontes, a sesquicentenária casa da família Brandão é avistada por trás de uma frondosa figueira, que nos dá sombra no limite sudeste da mesma praça. A casa de esquina, como disse, está na confluência de uma espécie de “Rua Direita” com a praça da povoação. É a primeira casa dessa artéria principal do lugar, à esquerda de quem a percorre, seguindo da praça para o porto. Não me causou surpresa saber pela professora Andréa Cruz, uma das minhas interlocutoras em Entremontes, que a tal artéria chama-se Rua D. Pedro II. À medida que dela me aproximava, com certo vagar, para melhor apreciá-la, reconhecia a herança colonial na fisionomia da casa oitocentista, dotada de uma larga platibanda, que resguarda a cobertura em duas águas e telhas cerâmicas tradicionais. A platibanda também coroa as três portas e as duas janelas, largas e altas, daquela fachada. Na verdade, as duas primeiras portas, da esquerda para a direita, dão acesso ao antigo armazém da família Brandão, hoje mercearia da família Lisboa. A terceira porta e as duas janelas que se seguem, estas sim, dão para a casa de morada, que possui apenas quatro cômodos (sala, dois quartos e cozinha) e anexos construídos em parte do quintal (área de serviço, banheiro etc.). No oitão da casa, há, ainda, uma porta lateral da mercearia e, mais ao fundo, uma janela que areja e ilumina sua cozinha, além de um pequeno muro com porta de acesso ao quintal. Como descobri tudo isso? Pedindo licença para bisbilhotar. Fui chegando de mansinho. Dona Zilma Nunes Lisboa estava bem-posta sobre uma cadeira de balanço, aproveitando a fresca que entrava pela segunda porta da mercearia, com um olho no celular e outro no movimento da rua. Apresentei-me, conversamos um pouco e, percebendo meu interesse para além da fachada de sua morada, convidou-nos a entrar. Prontamente, aceitei. No geral, a casa está bem-preservada. A mobília e o forro em PVC destoam de todo o resto. É preciso, no entanto, considerar que não se trata, ali, de um memorial ou um museu. A antiga casa da família Brandão, hoje, pertence aos Nunes Lisboa. É a casa de dona Zilma, viúva do senhor Erasmo Nunes Lisboa, falecido em março de 2020. A tradição e as fontes históricas registram que essa casa recebeu o mais ilustre visitante de Entremontes: D. Pedro II do Brasil, quando regressou da sua excursão à Cachoeira de Paulo Afonso. Na verdade, na verdade, o que consta nas notas do imperador e em outros documentos coevos é uma breve pausa, na tarde de 22 de outubro de 1859, para uma refeição na casa de Anacleto Brandão, proprietário rural e comerciante de couros, solas e peles, patriarca da mais proeminente família local. “Chegámos ao Armazem ou Entremontes ás 3 1/2 [da tarde]; jantámos ahi na casa d’um Anacleto Brandão” (notas editadas por Alcindo Sodré, e publicadas sob o título “Visita de D. Pedro II à Cachoeira de Paulo Afonso”, no Anuário do Museu Imperial de 1949. p. 141). Enquanto andava pela casa de dona Zilma e rememorava o trecho das notas do imperador acima transcrito, veio-me, também, um trechinho de uma canção antiga e de que sempre gostei. Referindo-se a outro destino do imperador naquela viagem iniciada em 1859, Caetano Veloso cantou: “No cais de Araújo Pinho / Tamarindeirinho / Nunca me esqueci / Onde o imperador fez xixi” (Trilhos Urbanos, 1979).