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Memória do esquecimento

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A nossa memória é traiçoeira. Reconhecemos rostos que encontramos, mas não seus nomes, ou lembramos de nomes, mas não dos seus rostos. Esquecemos coisas recentes, enquanto lembramos das brincadeiras da infância. Poucos têm a memória de políticos que lembram e dizem na bucha o nome dos avós, bisavós e tataravós de eleitores. Goethe já afirmava: “Quando o interesse diminui, com a memória acontece o mesmo”. A ciência recomenda para os idosos (acho recomendável para todas as idades) como forma de preservar a higidez mental manter a mente em atividade permanente com coisas estimulantes e saudáveis, como a leitura, os estudos e a música. Mas quando somos bombardeados desde as primeiras horas da manhã por contínuos obuses de WhatsApp, tudo fica muito confuso.

Segundo estudiosos da militância antivacinas, uma das razões para isso existir, inclusive no Brasil, seria termos esquecido os efeitos nefastos e letais das epidemias. A militância antivacinas seria um efeito paradoxal do uso historicamente positivo delas. Kant escreveu: ”Lembra-te de esquecer”. Foram esquecidos os efeitos adversos da dipirona, tão sérios e frequentes que a fizeram ser proibida nos EUA, Inglaterra e Austrália os efeitos adversos da aspirina, dos corticoides, dos anti-inflamatórios usados corriqueiramente e os dos antibióticos, como a amoxicilina, que utilizados sem critérios, proporcionaram o surgimento das bactérias resistentes, as superbactérias, este sim, um imenso problema para a Medicina. As vacinas surgiram há 226 anos e continuam sendo a única, segura e eficaz forma de prevenção de doenças contagiosas e mortais em larga escala. Seria o negacionismo uma “memória seletiva”? Decorrente do uso obsessivo do WhatsApp? Fazendo-nos “esquecer “as evidências da ciência, como nos EUA, onde as estatísticas de mortes por milhão mostram que 97 são de não vacinados, 7 de vacinados incompletamente e apenas 1 deles vacinado com o reforço? Contudo, os desafios permanecem: a vacinação infantil é uma das maiores vítimas desse “esquecimento” seletivo. Nós, nossos filhos e netos estamos vivos e saudáveis porque tomamos as vacinas que nos evitaram doenças agressivas e letais. Atualmente, nossas crianças tomam cerca de 22 vacinas até os dois anos de idade, por isso estão vivas e saudáveis. Todavia, 80% das crianças vacináveis estão sem vacinação para a Covid-19 no Brasil. Isso é extremamente grave, e poderá ser esquecido? Ou essa memória precisará ser preservada, para impedir que essa tragédia se repita no futuro? Esquecer experiências pessoais desagradáveis ou traumatizantes é uma conduta aceitável para poupar nosso ego, mas quando são erros pessoais marcantes, principalmente se prejudicarem terceiros, necessitamos refletir, humildemente reconhecê-los, aprendermos com eles e superá-los para que não se repitam e voltem a causar malefícios. A nossa mente saneada, agradece. Tomarmos juízo para ver o gosto que ele tem, vale a pena?

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