Opinião
ENTREMONTES ( VI ): AINDA SOBRE SUA IGREJA
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De careca descoberta e Panamá sobre o peito, percorri com vagar o interior daquele templo católico oitocentista. Grosso modo, como já assinalara, ele está bem-preservado.
Em estilo eclético, pendendo mais para o neoclássico, sua imponência, suas duas torres sineiras perfeitamente simétricas, projetam-no sobre o miúdo povoado de casas térreas e quase sempre muito modestas. Não há sinal de forro em parte alguma sob o telhado. Se já existiu, não sobreviveu à incúria do tempo e dos homens. O altar-mor e os altares laterais, em alvenaria, certamente substituíram os originais oitocentistas, em madeira talhada. Ainda assim, essas estruturas conservam alguma beleza de inspiração também eclética, inclinando-se para o neogótico no altar-mor. O piso, em ladrilho hidráulico, certamente substituiu o piso original, provavelmente em lajota cerâmica. Para nossa sorte, as intervenções ali realizadas preservaram as lápides sepulcrais (ao menos as que encontramos por lá, mencionadas no artigo anterior). Não identifiquei nenhuma outra lápide na nave central, nos corredores laterais ou nas sacristias do templo. A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, individualmente, além do sítio histórico e paisagístico de Entremontes são tombados pelo Governo de Alagoas, com base na Lei n. 6.650, de 19 de dezembro de 2005. Em tempo, aos interessados na antiga prática de sepultamentos no interior de igrejas e capelas, sugiro, para além das clássicas páginas escritas por Gilberto Freyre sobre o assunto, o livro “A morte é uma festa” (1991), de João José Reis, competentíssimo historiador, meu professor à época do doutorado em História na Universidade Federal da Bahia. Tornando à igreja de Entremontes, confesso ter sentido uma pontinha de tristeza em não a ter visitado em uma daquelas datas solenes de dezembro, quando a voz forte e afamada de dona Zefa de Entremontes entoa cânticos religiosos antigos, em um latim caboclo tão característico. Considerando que teria de aguardar, no mínimo, até o fim de 2022 para acompanhar a performance de dona Zefa, fiz tocar no aparelho do carro, ainda diante da igreja e pouco antes da partida para a Fazenda Remanso, a Totta Pulchra e a Magnificat, na também marcante e cabocla interpretação de Maria Betânia, em seu álbum “Cantos, preces, súplicas…” (2007).