Opinião
Combust�vel explosivo
Sempre causa um susto, apesar da repetição histórica, o aumentar do preço dos combustíveis. Houve tempo em que, assim como o preço do pãozinho, isso era uma referência para a inflação, chegando a funcionar como uma antecipação do índice a ser indexado. Gasolina mais cara, mais inflação. Há cerca de dez anos, depois do advento do real, operou-se a magia de subir preços de tudo sem que os vários métodos de cálculo da inflação se dêem conta disso. Pode-se dizer que hoje a subida dos preços dos combustíveis causa um duplo susto ou um duplo mal-estar. Sabe-se que a inflação crescerá mais um pouco, abocanhando mais um naco do poder aquisitivo do brasileiro, mas não existirá qualquer indexador para aliviar a carga. Pois novo aumento da gasolina está anunciado: 10,8% nas torneiras das refinarias (e 10,6% para o diesel). E horas depois de conhecido esse índice, ainda não se tinha certeza de seu impacto no preço final para o consumidor. Novo susto, para quem presta atenção nas coisas e nas contas. Afinal, existem mais mistérios entre dois preços do que pode supor nossa vã filosofia. É interessante atentar para as hipóteses levantadas no começo da noite de segunda-feira, horas depois da confirmação dos índices de aumento na saída das refinarias. A Federação dos Postos de Combustíveis chegou a prever para o consumidor aumentos de até 7% para a gasolina e de até 10% para o diesel. Depois as expectativas foram desenhadas mais embaixo, chegando a 4,5% no caso da gasolina. O fato é que o emaranhado de tributos é de tal intensidade e complexidade que, de fato, não é simples se chegar a um denominador comum ? nesse caso, os complexos números da economia são mais abstratos ainda que os números complexos na matemática clássica. No caso da composição do preço final da gasolina, deve-se considerar que entre a refinaria e a bomba esse combustível recebe a adição de 25% de álcool, o que representa um alívio para o bolso do consumidor. Esse reajuste também não incide sobre parte da carga tributária, pois seguem inalterados os valores da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), do PIS e do Cofins. Para o diesel (combustível mais usado no transporte de mercadorias), o reajuste praticamente não tem redutores, pois não existe ainda um produto que lhe possa ser misturado, embora o valor da Cide seja menor (R$ 0,2180 por litro de diesel contra R$ 0,5411 por litro de gasolina). Entendeu as contas e as siglas? Não importa, no fim das contas você terá que pagar mesmo mais esse aumento.