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Entremontes ( VII ): o Remanso

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Não sem sobressaltos, chegamos à sede da antiga Fazenda Remanso, no Distrito de Entremontes, por volta do meio-dia daquele 31 de dezembro. Diante da íngreme, longa e pedregosa ladeira que tivemos de descer para alcançar a propriedade, mamãe e tia Cícera, quase aos berros, insistiam que eu as estava conduzindo a um precipício e, logo, encontraríamos as profundezas do São Francisco. O exagero é mesmo um traço de personalidade entre as mulheres da minha família.

Depois de uma das curvas da desafiadora estrada, a visão do Remanso apascentou os espíritos mais inquietos. Sob o azul daquele céu ensolarado e quase sem nuvens, o espelho-d’água do Velho Chico parecia estático em seu leito. Diante dele, num terraço entre as bordas do rio e as fraudas do morro, estava o sobranceiro casarão do Remanso, hoje vertido em uma acolhedora pousada rural, comandada por Jacqueline Rodrigues, filha e também herdeira do senhor Celso Rodrigues Rego, líder político de longeva influência no município de Piranhas, prefeito por quatro mandatos. Em breve levantamento no acervo digitalizado da Fundação Biblioteca Nacional, localizei alguns mapas antigos que indicam que a Fazenda Remanso foi constituída entre o primeiro e o segundo quartel do século XX, tomando para si a denominação de um riacho efêmero que, descendo dos morros adjacentes, serpenteia a propriedade e deságua no São Francisco. Nos mapas oitocentistas, facilmente localizamos o “Riacho do Remanso Grande”, nas imediações do que seria a sede da fazenda, próximo de Entremontes e, mais ainda, de uma localidade denominada “Lopes” (provavelmente outra fazenda). Mesmo antes da morte de Celso Rodrigues, em 2021, a Fazenda Remanso foi sendo desmembrada. Herdeiros do patriarca trataram de lotear e se desfazer dos seus quinhões. A antiga sede da fazenda, felizmente, foi preservada pela família. Transformou-se em uma grande chácara da margem alagoana do São Francisco e está sob a guarda da nossa anfitriã Jacqueline, que é pedagoga e possui especialização em Gestão de Empreendimentos Turísticos. Entre os estudiosos do Cangaço, o Remanso constitui um “lugar de memória” importante. Lá encontrou guarida e de lá partiu a volante que desmantelou o bando de Lampião, em 1938. Quase que fronteiro ao Remanso, na outra margem do rio, na margem sergipana, poço-redondense, está o antigo Angico e, ao fundo, morro acima, a famosa grota onde Lampião e seus comandados foram surpreendidos e mortos. Da varanda daquela antiga e bem-cuidada vivenda, o senhor Valter Santana da Cruz, caseiro há décadas do Remanso, indicou-me claramente o pequenino riacho do Tamanduá, que separa os municípios sergipanos de Poço Redondo e Canindé do São Francisco. Valter é filho de Adauto Félix, célebre coiteiro de Lampião na região do Cajueiro, em Poço Redondo, logo ali adiante, descendo o rio. O Remanso, que antes estivera com os Martins Lisboa, está com a família Rodrigues há mais de quarenta anos e, pelo que pude ver, Jacqueline está plenamente disposta em seguir preservando a memória e as belezas do lugar.

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