Opinião
Riscos da taxa
A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de manter inalterada a taxa básica de juros da economia (Selic) em 16% ao ano demonstra, de forma inequívoca, a fragilidade da economia brasileira. Em nota justificando a medida, o BC foi evasivo: ?Avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 16%, sem viés?. Se em outras circunstâncias menos turbulentas o Copom (como nos dois primeiros meses do ano) já havia sinalizado que manteria o comportamento conservador adotado durante todo o ano anterior. Dentro dessa ótica é perfeitamente natural (quase uma decorrência) que nas atuais condições ? câmbio acima de R$ 3,00 por US$ 1,00; aumento da gasolina; iminência de aumentos juros americanos ? a taxa Selic permanecesse inalterada. Como se sabe, o governo federal projeta um crescimento do Produto Interno Bruto para esse ano na ordem de 3,5%. É perceptível pelos últimos indicadores econômicos divulgados (como o crescimento industrial e o desempenho do comércio, por exemplo), que existe de fato uma recuperação na atividade econômica do país. O quanto esse ritmo de recuperação vai afetar as decisões do Copom, saberemos mais adiante, embora alguns prevejam a possibilidade de menor crescimento econômico. Os mais otimistas avaliam que só a partir de agosto seria possível apostar numa redução da taxa Selic. Até lá, as turbulências já teriam passado e haveria um certo acomodamento das expectativas dos agentes econômicos, desanuviando o ambiente. O BC tem sempre enfatizado que não existe uma relação direta entre a taxa básica de juros da economia e desenvolvimento, no entanto sua manutenção nos atuais níveis compromete a recuperação e o crescimento da economia no longo prazo. Num cenário de queda de liquidez internacional, um crescimento econômico compatível com as nossas necessidades só se sustenta através da ampliação da oferta de crédito e da diminuição do seu custo de captação. Crescimento econômico sustentável, com taxa de juros de 16% ao ano, é uma quimera que pode se transformar em pesadelo.