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Opinião

O bumerangue de Zuckerberg

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Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook, declarou em 2007: “Os últimos cem anos foram definidos pela mídia de massa. Nos próximos cem anos, a informação não vai ser empurrada para as pessoas. Ela será compartilhada entre as milhares de conexões que as pessoas têm”. Zuckerberg tinha a seu favor na competição pelas nascentes redes sociais digitais ser egresso de Harvard e uma retórica idealista que promovia a informação como meio civilizatório e o auxiliou a criar a maior rede social de todos os tempos. A forma pela qual as redes sociais têm sido utilizadas, infelizmente, constata-se novamente através da invasão à Ucrânia, onde “viralizaram” o tráfico de órgãos humanos retirados de soldados cujos corpos evaporavam em crematórios ambulantes na região de Donbass, leste daquele país; e um menino era crucificado em praça pública por ser parente do presidente pró-URSS deposto, Viktor Yanukovych. E os nazistas dominariam o governo ucraniano. Eram todas fakes e foram desmentidas pela imprensa profissional internacional.

Muitas dessas fakes foram reproduzidas continuamente por emissoras de grande audiência na Rússia, onde o controle da informação é estatal. Mas essa guerra, como todas as outras, não é feita por santos. Do lado ucraniano, elas também circularam, embora inexpressivas, pois a sua realidade já é apavorante e a sua credibilidade é um ativo fundamental. As guerras sempre foram um campo fértil para as fakes. A diferença nesse caso é que as fakes russas são chapa branca e dirigidas principalmente para a população russa, desinformando-a permanentemente para mantê-la subserviente ao poder de Putin. Pela primeira vez na história, em 2016, nos EUA, para desalento de Zuckerberg, as eleições tiveram nas fakes disseminadas em toneladas no Faceboock e no Twitter um fator decisivo na vitória de Trump, e até uma pandemia devastadora como a de Covid-19 foi ainda mais devastadora pela veiculação em massa de fakes sobre medicamentos sem eficiência e mentiras sobre as vacinas, que levaram à morte milhares de pessoas. O esforço do Judiciário, em especial do STF, em trazer para as regras da legislação e do Marco Civil da internet todos os seus aplicativos, inclusive o Telegram - já arrolado judicialmente em vários países democráticos, como a Alemanha, e que atuava no Brasil como se fosse uma terra de ninguém - precisam ser robustecidos pelo PL que tramita no Legislativo, adequando-o aos malefícios que as fakes podem causar à saúde pública e à democracia. A internet não pode ser um santuário inexpugnável de mentiras e de discursos de incentivo ao ódio. Em democracias existem limites legais para tudo e para todos. Poder fazer tudo o que se quer, ilimitadamente, é impossível em uma democracia. A liberdade total e absoluta só existe em ditaduras.

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