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Opinião

Novo normal e o antigo normal

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O alimento faz parte de nossa memória afetiva. Recebi um pedido de entrega de dois quilos de manjericão, trata-se de um volume grande de massa vegetal, quando cheguei com a braçada de manjericão o cliente relatou de pronto que se transportou para a infância na casa do avô, onde havia uma horta de manjericão, quando chovia a casa era invadida pelo aroma do tempero. Outro amigo me pediu, “leite de vaca de verdade”, porque com o leite UHT ele compra embalado não reproduzia o cheiro do doce de leite feito pela avó, ele encontrou o tacho antigo em casa, mas não conseguia o mesmo resultado culinário.

Tenho percebido que alimentos que haviam sido vilanizados, os ovos, por exemplo, voltam à cena sendo percebidos como saudáveis. A banha, o embutido de suíno, a carne vermelha, os produtos vindos diretamente “da roça”, que há algum tempo eram vistos com desconfiança e até desprezo, hoje agregaram valor com grife e certificação. Alimentos tradicionais, que por vários anos saíram de cena, entraram na moda, integrando-se ao comportamento de consumo de alto padrão. A entrega de hortifrutigranjeiros na porta das pessoas, que se vale de aplicativos para acontecer, acelerou muito durante a pandemia, também em função da busca de mais saúde e resistência imunológica, ou da sensação disso. Antigos hábitos, como o de presentear com alimentos, foram resgatados. Dar de presente um doce de leite artesanal, um prato feito a partir de uma receita que resgata referências de família, ou um produto de culinária colonial, são práticas que estão em voga. Descobrimos na pandemia que mesmo não estando presentes fisicamente podemos manifestar carinho, apreço e lembrança, especialmente com alimentos que podem carregar uma memória, que remontam a tradições, lembranças e formas de se relacionar, isto passou a ser valorizado. Existe a tendência de desejarmos com mais ardor aquilo a que deixamos de ter acesso. Mesmo com a retomada das atividades presenciais, a experiência de resgate das lembranças e de formas de emocionar aos outros através dos sabores e aromas, que nos remetem a momentos vividos juntos, marcou nossa passagem pelo desafio de sobreviver e ajudar a sobreviver à pandemia. O novo normal de muitas maneiras acabou nos fazendo buscar lembranças e referências. A tecnologia surgiu como um elemento novo, mas degustar, sentir aquele cheirinho especial e confraternizar com uma refeição são comportamentos que se renovaram.

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