Opinião
Entremontes (Final)
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Antes de retornarmos para o almoço e nos despedirmos do Remanso, insisti para dar uma passada no cemitério do distrito, construído a mando de Anacleto Brandão em meados do século XIX. Meu filho e eu, como duas almas penadas, decidimos caminhar até o portão do cemitério, enquanto Jacqueline e Ana tratavam de conseguir as chaves com o coveiro responsável pela necrópole.
As chaves não foram necessárias. Ao nos aproximarmos, Eduardo percebeu que somente um cordão plástico amarrava suas duas bandas do portão, mantendo-o aparentemente fechado. Não havia muito que ver ali, para além dos grossos muros e do pórtico oitocentista que faz lembrar a fachada de uma capelinha colonial. Nele, acima do portão e em alto-relevo, figura a “simpática” representação de uma caveira encaixada entre dois ossos cruzados, iconografia comum em pórticos de cemitérios antigos. A necrópole, erguida a noroeste da Igreja da Conceição, esta muito próxima do povoado, apartada dele por um riachinho seco, que ladeia o muro leste do cemitério. Em seu interior superlotado, encontramos alguns sepulcros malcuidados e muitas covas rasas. Nada ali cativa um visitante sem laços de parentesco com os defuntos residentes. Talvez essa consciência de superlotação e incúria, tenha levado o poder público municipal a providenciar a ampliação daquele cemitério, praticamente duplicando-o, com uma nova ala a oeste. No regresso ao Remanso, um apressado banho para tirar o pó de cemitério e não atrasar o almoço dos familiares e amigos que nos aguardavam. “Sofrivelmente”, para usar um termo caro ao imperador D. Pedro II, chegava a hora de partirmos. Tínhamos um compromisso em Águas Belas, Pernambuco, no fim daquela tarde. Precisávamos nos apressar. Aliás, a correria da saída caiu como uma luva, para mitigar a tristeza da despedida. Mesmo partindo por outro caminho e para outra direção, inevitável foi lembrar da partida do “imperador cinzento”, que deixou Entremontes há mais de um século e meio (e nunca mais voltou). “Ás 5 horas largou o Pirajá de defronte do Armazem e chegámos a Pão d’Assucar depois das 7” (notas editadas por Alcindo Sodré e publicadas sob o título “Visita de D. Pedro II à Cachoeira de Paulo Afonso”, no Anuário do Museu Imperial de 1949. p. 141).
Na estrada, a caminho das Águas Belas, antes da vista alcançar a paisagem do entorno da Fazenda Nova, que sempre me emociona, seguia com a lembrança do imenso mulungu da entrada do Remanso. Recordei, então, de uma nota, deixada a próprio punho por Zélia Gattai, no “livro de ouro” de um antigo engenho de açúcar do Vale do Vaza-Barris, em Sergipe. Sobre sua breve passagem por ali, em princípios da década de 1990, ela anotou: “o tempo foi pouco para tanta beleza. Quero voltar!”. Diríamos o mesmo, em relação ao Entremontes, ao Remanso, ao Capiá e às pessoas com as quais tivemos a sorte de conviver naqueles dias felizes, que ficarão registrados aqui e em nossas memórias. ... “In memoriam”, dedico os artigos desta série ao amigo Luiz Fernando Ribeiro Soutelo, falecido em princípios deste ano. Meu primeiro contato com as “augustas notas” de Pedro II, deu-se por intermédio de Soutelo, que muita falta nos fará.