Opinião
D�cada real?
Nesta semana completaram-se 10 anos da edição do Plano Real. Um decênio onde o país mudou e muito, criaram-se novos problemas e agravaram-se os antigos. Existe um saldo positivo: conseguiu-se baixar a inflação. Mas até hoje, para mantê-la nesse (irreal) patamar foi necessário sacrificar o desenvolvimento. Para quem havia prometido o paraíso, justificando assim a necessidade de se entregar de mão beijada o patrimônio nacional, de estabelecer uma abertura desenfreada às importações e a desregulamentação do mercado de capitais ? o resultado é um Brasil pior e mais desigual. Por mais condescendência que se tenha com o Plano Real, se a análise for feita do ponto de vista do conjunto do país ? através de uma contabilidade simples de perdas e ganhos ? sobressai-se um único setor: as instituições financeiras. Segundo pesquisa divulgada pela consultoria Economática, dentre as 10 maiores empresas de capital aberto que mais lucraram no período 1994-2004, quatro são bancos, que abocanharam 39% da soma do lucro de todas as empresas. Nessa década o Brasil também ficou mais vulnerável, vide a sobrevalorização do real entre 1994 e 1998, que escancarou o país às importações, estimulou viagens e aumentou enormemente a dívida pública, até atingir perigosamente a relação atual que subiu de 28% para 57% do Produto Interno Bruto. Para completar, aumentou-se a carga tributária nesses 10 anos de 26% para 36% do PIB. Em compensação, o desemprego bateu recorde, o rendimento médio dos trabalhadores diminuiu e a taxa média de crescimento foi de apenas metade do decênio anterior (2%). Nosso país é um recordista em crises cambiais no período. Esse mal afligiu-nos em 1995 (com um pequeno hiato em 1996) e se repetiu anualmente entre 1997 e 2002. E nesses apertos, em maus lençóis, toda vez se apelou para o caro cobertor do FMI. Mas o pior legado do Plano Real talvez tenha sido entorpecer as expectativas da população brasileira e fazê-la aceitar taxas de crescimento econômico medíocres como se fosse a coisa mais natural do mundo. A acomodação do atual governo tem ao seu lado a falta de pressões legítimas da sociedade por um crescimento mais vigoroso da economia. Por quanto tempo essa irrealidade ainda será soberana? Por mais uma década ainda?