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Opinião

Música, maestro!

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Por Marcos Davi Melo - médico e membro da AAL e do IHGAL | Edição do dia 14/05/2022 - Matéria atualizada em 14/05/2022 às 01h13

Durante a ocupação da França pelas tropas nazistas na Segunda Guerra mundial, além da conquista do território e sua submissão, o III Reich pretendia conquistar os corações dos gauleses para dominá-los completamente. O cinema, o teatro e a literatura germânicos tinham na barreira linguística um obstáculo, mas os franceses já eram apreciadores da música alemã. Afinal, Bach, Handel, Mozart, Beethoven, Mahler e muitos outros alemães notáveis tinham um lugar fundamental na música clássica. E, da mesma forma como as barbaridades de Hitler não podiam ser atribuídas aos compositores alemães, nem mesmo a Richard Wagner, que era notoriamente antissemita e nacionalista, o III reich não podia reivindicar crédito algum pela genialidade deles. Para os franceses, o que tornava a música clássica especialmente atrativa era a sua natureza abstrata, que proporcionava um alívio inigualável das dificuldades encontradas no dia a dia. Quando as bandas militares alemães se apresentavam nas escadarias da Ópera de Paris atraíam multidões de parisienses, não para apoiar a ocupação, mas porque a música funcionava como um chamariz. E, quando as bandas de metais alemãs tocavam no Jardim de Luxemburgo, os parisienses chegavam a esquecer por um momento que aqueles eram os clarins do Exército que os derrotara. Na verdade, se havia um perigo real, era o de que a música clássica pudesse contribuir para humanizar os nazistas: afinal, um país cujo legado incluía as composições de Bach e a Filarmônica de Berlim seria o mesmo dos campos de concentração de Auschwitz, Birkenau e Treblinka? Na verdade, qualquer pessoa pode sentir as emoções provocadas pela música. Mas em gradações diferentes, como é a resposta individual a qualquer forma de manifestação artística. Entre os benefícios que as artes nos proporcionam, elas promovem mais flexibilidade, possibilitam o acúmulo de conhecimentos e ampliam horizontes, porque elas não se prendem a uma série de regras e diretrizes. Elas sãos fluídas e estão em constante desenvolvimento. Promovem inovações, renovações e ainda quebram barreiras consideradas inexpugnáveis. Os artistas têm a capacidade de promover visões críticas sobre qualquer tema e até de propor reflexões por meio de sua arte. Criam expectativas em nossas vidas, nos apresentam um mundo novo, cheio de descobertas e possiblidades para serem exploradas. Com apenas um livro se viaja muito além da Via Láctea. Umberto Eco acreditava que as artes acionavam um mecanismo preexistente que as pessoas carregavam dentro de si, fosse ele consciente ou inconsciente, e abria portas, permitia a injeção de significados em algo que não tem sentido para outras pessoas e era por isso que as pessoas percebiam a arte de maneiras diferentes. O setor artístico sofreu demais nessa pandemia de Covid-19. Ele emprega muita gente e promove distribuição de renda. Precisa do total apoio das autoridades públicas, inclusive porque é através da música, do cinema, da pintura e da literatura, que o Brasil é mais apreciado e respeitado no mundo.

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