Opinião
Verbas da Sa�de
RONALD MENDONÇA * Há alguns dias, a Folha de S. Paulo publicou interessante entrevista com o professor Antonio Franchini Ramires, diretor do Instituto do Coração, hospital paulista conhecido como Incor. Por sinal, a matéria jornalística serviu de tema a um dos editoriais do mesmo jornal, já no dia seguinte. De fato, a citada entrevista comenta assuntos muito atuais (SUS, escolas de medicina, planos de saúde), que têm importância no dia-a-dia do cidadão comum. Segundo o entrevistado, a proliferação desordenada de faculdades de medicina, com recrutamento de corpo docente despreparado,está provocando uma queda significativa na qualidade dos formandos. Por isso, Ramires defende a implantação de uma prova, semelhante àquela que a OAB aplica para os que querem exercer a advocacia. O prognóstico em relação ao resultado seria ?catastrófico?, semelhante ao que ocorre com o exame da OAB, que em São Paulo chega a reprovar 80% dos candidatos. Doutor Ramires acredita que o ?médico mal formado? desencadeia uma espécie de cascata de fenômenos: mau médico, menor capacidade de discernimento, mais exames complementares, que gerariam mais despesas para os planos de saúde e, como conseqüências terminais, aumento das mensalidades para os usuários e baixa remuneração para os médicos. Em relação ao SUS, o diretor do Incor acha que os recursos são abundantes, o que existe mesmo é má utilização das verbas. Por partes: é claro que ninguém discorda que se não houver uma política de controle em relação à criação de novas faculdades, a coisa pode degringolar de vez e os cursos de medicina vão virar brincadeira ? como, infelizmente, ocorre com a área de direito. A carência de bons professores de medicina é uma realidade. Pessoalmente, contudo, não comungo com o catastrofismo do doutor Ramires, até porque os formandos de medicina se preparam para fazer concurso de residência, que muitas vezes tem o rigor de um novo vestibular. Deve ser lembrado, ainda, que muitos coroados professores titulares de famosas faculdades médicas esforçam-se para manter prudente distância dos alunos. São meros bibelôs mais interessados em aparecer como orientadores de teses de doutorado, teses essas insossas ? de questionáveis valores -, que servem apenas para adornar currículo. Por sua vez, exames complementares são o calcanhar de Aquiles da medicina. Muitos ?bons? e ?maus? médicos estão no mesmo barco. Os ?maus?, como já se sabe, abusam do exame complementar por insegurança. Os outros, os ?bons?, imitando práticas dos grandes centros, fabricam indicações para engrossar, através de múltiplos expedientes, o orçamento mensal. Quanto ao SUS e o destino de suas verbas, o leitor terá a oportunidade de ver como as aplica a Secretaria da Saúde de Alagoas lendo os excelentes noticiários da GAZETA DE ALAGOAS. (*) MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL