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Opinião

A fome tem gênero

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Por Viviane Nogueira Orro - médica nefrologista, trabalhadora do Sistema Único de Saúde (SUS) há 24anos e presidente do PSD de Aquidauana-MS | Edição do dia 23/06/2022 - Matéria atualizada em 22/06/2022 às 22h33

A expressão “feminização da pobreza” foi citada pela primeira vez em 1978, pela estudiosa norte-americana Diane Pierce, que na época já apontava a existência de mais mulheres pobres do que homens pobres no mundo.

A “pobreza de gênero” é evidenciada pelos números da Organização das Nações Unidas (ONU), que destaca que mais de 70% das pessoas em situação de vulnerabilidade social no mundo são do sexo feminino. Por aqui a situação não é diferente. Recente pesquisa sobre insegurança alimentar no Brasil, realizada pela FGV Social, revelou que, com o advento da pandemia, 47% das mulheres passaram a viver sem saber se poderão comprar comida no dia seguinte. Sim, quase metade das mulheres no Brasil estão em situação de insegurança alimentar, número seis vezes maior que a média mundial, segundo o mesmo levantamento, que analisou dados de 160 países. Entre os homens, essa proporção é bem menor, de 26%. Eis aí o fenômeno da “feminização da fome”. E isso num Brasil onde quase metade dos lares (48%) são chefiados por mulheres, inteiramente responsáveis por colocar comida na mesa e pagar todas as contas domésticas. Esse triste cenário é fruto de uma gênese estrutural antiga, afinal a mulher sempre ficou com a responsabilidade de gerenciar a casa e os filhos, trabalhando de forma não remunerada. Além da jornada doméstica, a mulher, quando trabalha fora, ainda é submetida a funções menos valorizadas, até mesmo quando estuda e se especializa mais. Seu rendimento mensal, em média, não passa de 70% do salário de um homem que ocupa o mesmo cargo. Sem falar que as mulheres são a maioria nos trabalhos informais, mais precários, e as primeiras a sofrerem com o desemprego ao longo da fase mais grave da pandemia, quando tiveram de intensificar os cuidados da família. Tal realidade, enfim, gera um cenário generalizado de exclusão feminina e de favorecimento dos homens na repartição da riqueza. E essa insegurança financeira reflete diretamente não só na mesa das famílias brasileiras, mas também na saúde física e emocional da mulher. Uma em cada 4 mulheres sofreu violência doméstica no período da pandemia. E a causa mais apontada pelas entrevistadas da FGV foi justamente a queda no orçamento doméstico. As mulheres estão mais doentes, tanto no aspecto físico quanto mental. Uma pesquisa da USP, feita nos primeiros meses de pandemia, revelou que a ansiedade, o estresse e doenças de saúde mental, como um todo, atingiram bem mais o público feminino, chegando a 40% das mulheres, contra 6% dos homens, nos casos de depressão. O tema da “feminização da fome” foi levantado nesta semana pelo deputado Fábio Trad na Câmara Federal, que alertou para a necessidade de o país investir mais em políticas públicas para a mulher. Políticas urgentes que ampliem, de forma efetiva, transversal e multissetorial, o apoio econômico-social a famílias de mãe-solo. Uma mulher que pode trabalhar é uma mulher mais livre e saudável e a situação de insegurança alimentar não pode continuar sendo tão pior entre as mulheres. Se, como dizia o cantor e compositor Milton Nascimento, “é preciso ter força, raça, e gana sempre”, rogo que isso não haverá de nos faltar nunca, para que nossas futuras “Delinhas, Coras, Dionísias, Berthas, Leilas, Simones, Penhas, Marias e Clarices”, tenham, de fato, sua liberdade, igualdade e respeito garantidos pela Constituição Federal e pelo nosso Estado democrático de direito.

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